Thursday, June 08, 2006

Falta de Vontade ou Acomodado Mesmo?

Não sei se é porque como fui criada em ambiente mais japonês que brasileiro em minha família, do tipo falar com a família misturando mais japonês que português (prova disso é que tem muitas palavras do cotidiano que acabo falando em japonês mesmo quando ainda morava na terrinha ), comer arroz sem tempero, comer salada com shoyu, e por aí vai, ou se é porque segui ao pé da letra aquele velho ditado: "Em Roma, faça igual aos romanos", mas a verdade é que, depois de oito anos aqui, quando tirei um mês de merecidas férias (acho que precisava de dois ), voltei a terrinha e não me acostumei mesmo lá!
Por mais que adoro feijoada e beliscões de goiabada, o que realmente não me acostumei ( bom, um mês queriam o quê!) foram os fatos de andar de coletivo com catraca (passei vergonha com minha mãe quando minha bolsa entalou nela ), ir numa loja de roupas e não se sentir à vontade pra escolher, entre outras coisas mais. Tudo bem, se ficasse três meses lá, já estaria me sentindo melhor, apesar dos apesares. Antes que me joguem um barril com um monte de pedras dentro, deixo claro que gosto da terra onde nasci, onde meus avós fincaram raízes, onde meus pais foram criados, mas quando você passa muito tempo fora da sua terra natal, a coisa muda de figura.
Quando cheguei aqui, oito anos atrás, eu era mais uma nas estatísticas da lista dos "brasileiros que saíram de sua terra pra encarar o estrangeiro". Cheguei mais crua que cenoura na terra, feito estagiário em seu primeiro dia de batalha. Para mim, tudo era novo, desde andar de avião até pegar um trem. Ver a cidade de Tóquio e Osaka não contam logo de cara, porque primeiro, o aeroporto de Narita fica na província de Chiba e nem pude sair do aeroporto. Segundo, quando cheguei em Osaka, destino final, era pra lá de oito da noite e estava mais dormindo que acordada depois que cometi a besteira de tomar remédio contra enjôo no vôo de conexão que durou 45 minutos e eu achando que levaria duas horas...
Bom, quando morei no interior de Hyogo, estávamos eu e eu, teria que me virar. Com o meu parco conhecimento de língua japonesa, limitado a escrita de katakana e hiragana e "malemar" sabia kanji, imagine conversar e ler! Pra isso, custou-me muitas broncas e erros, como comprar banha achando que era um novo tipo de fermento, maizena achando que era farinha e aí vai. Não, não confundi açucar com sal nem iogurte líquido com leite porque ao menos noção de culinária - felizmente - tinha e tenho até hoje. Mas sobre a banha e maizena, tenho culpa se na embalagem da banha tinha as fotos de pães e a maizena tinha desenho de uma rama de trigo? Errar também é humano, pôxa vida!
Que o pessoal que morava comigo me ajudava, isso não nego, mas também não poderia ficar dependendo deles para tudo. Eu também teria que seguir com minhas próprias pernas. Ora, quando a gente chega a uma certa idade, a gente não quer sair da casa dos pais para não ficar dependendo eternamente deles e conseguir seu espaço ( se bem que conheço gente que volta depois ... )? Pois aqui é a mesma coisa.
Que eu fiz? Comecei a comprar dicionários e acompanhar mais a progamação japonesa na TV; comprava mangás e tentava traduzir; saía e conversava com minhas colegas de trabalho japonesas. Aos poucos fui me virando aqui. E olha que onde morava no interiozão de Hyogo, não tinham tantos conterrâneos, não!
Quando conheci meu kinguio encantado, foi um pulo para a gente conhecer outros lugares. Foi quando resolvemos mudar para Kanagawa, mudar de vida e de trabalho. Novamente tive que saber me virar com a vida de ... hã... casada, pois dividir uma casa com três pessoas diferentes era uma coisa, e quando passa dividir a mesma casa, cama e mesa com uma pessoa que você vai ter a certeza que viveremos até a morte, a história muda.
Muita gente diria: "adeus a idas em livrarias, lojas de CDs, diversão". Mas no meu caso, a coisa não foi bem assim.
Foi a fase em que comecei a estudar cada vez mais a língua japonesa, a frequentar outros lugares diferentes, a conhecer a província toda e ir para Tóquio toda semana. Foi a fase também em que - por necessidade e insistência do kinguio - resolvi tirar carta de motorista aqui. Depois de três tentativas frustradas, na quarta vez depois de ter desembolsado algumas lascas pra uma aula particular, consegui. Quem pensou que meu kinguio era daqueles em que não deixaria a mulher fazer o que necessita fazer, enganou-se. Pelo contrário - ele me dá apoio para estudar, para procurar as coisas, para isso e aquilo.
Adoro feijoada, mas também sushi e sashimi.
Adoro churrasco, mas de uns tempos pra cá vivemos indo em yakinikus.
Adoro doces do Brasil, mas os doces daqui não "pesam".
Para isso tive que levantar a cabeça e ir em frente. Até a mudança de emprego onde estou hoje, encarei as dificuldades e fui em frente. Sabendo que teria no início muita dor-de-cabeça devido a repentina mudança de casa até as broncas de início, meio e fim.
Ouço diariamente gente que comenta que "odeio aqui porque aqui é assim, assim e assado". Têm horas que dá vontade de dizer "por que está aqui, então?" Mas a gente não o faz por educação. Gente assim é gente que só pensa em uma coisa só e não sabe aproveitar a vida. Por mais que aqui seja um custo de vida alto, se a gente não provar nunca saberemos se a fruta é boa ou não.
Seria o mesmo que um turista ir a Alemanha e pedir um McDonald's ao invés de encarar um chucrute autêntico mesmo sabendo da indigestão. Ao menos pode dizer aos quatro ventos que "comi um chucrute, fiquei constipado mas estou feliz".
Ou ir para o Egito e não ver as pirâmides.
Ou ir para a França e não ver a Torre Eiffel.
Ou ir para a India e não comer curry e nem ter visto o Taj Mahal.

Mas sempre haverá em todo o mundo um insatisfeito que sempre reclamará que nada presta.

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