Saturday, June 17, 2006

My Sweet Darling

Engraçado como as coisas são. Quando cheguei aqui, oito anos atrás, pensava em três coisas: conhecer o país, juntar dinheiro e aprender a língua japonesa, isso num prazo de dois anos. Conhecer o país onde meus avós (paternos e maternos) nasceram e passaram um bom tempo antes de pegar o navio e ir pra terrinha, seria conhecer os lugares inusitados e conhecidos, desde o Kinkakuji até o ramenya fuleiro mas limpinho da esquina. Juntar dinheiro era para garantir ao menos minha sobrevivência e minha passagem de volta, além de algumas lascas para segurança quando voltasse para meu lar doce lar. Falando em juntar, a última coisa que pensei foi juntar no sentido de conhecer alguém de preferências em comum e compartilhar o mesmo lar. Não, não estava desesperada em conhecer alguém e ir avançando, primeiro porque não sou dessas coisas e segundo, poderia assustar o pobre coitado.
Pois bem, até quase chegando um ano de estadia no país, e juntado algumas poucas lascas, pois pra quem veio com passagem financiada, seis meses fechando a mão e começando a conhecer as vantagens de cupons e point-cards, não dava pra juntar aqueeeeeeeela fortuna, mas dava para garantir o pão, leite e chocolate da semana, claro, eis uma surpresa que me acontece...
Imagine um vizinho legal que chega pra mim e fala de um rapaz na casa dos 30 assim, assim, assado e quer compromisso sério. Quando é compromisso sério, entende-se por ter uma vida a dois, como marido e mulher, dividindo casa, cama, mesa... Não o conhecia pessoalmente o candidato, mas falei ao meu vizinho, que trabalhava junto com ele, que poderia passar o recado que queria conhecê-lo sim, mas se me difamasse, diria que nunca mais teria feijão na faixa na janta de sábado ( oito anos atrás, a iguaria era raridade e muito cara aqui, se bem que hoje não é rara, mas continua cara!).
Duas semanas depois de muita enrolação, não podendo ver o candidato pois os nossos horários nunca coincidiam ( Do tipo, eu estava entrando pro serviço, ele já estava saindo e vice-versa. Acho que ele também não sabia como eu era, devido ao motivo citado ), finalmente o dia que ele resolve ir me visitar. Recado passado pelo meu vizinho. Oito e tanto da manhã de domingo, hora que ele sai do serviço e eu estaria quase acordando. Mas pedi que ligasse antes.
Domingo de março, um frio desgraçado de inverno terminando pra início de primavera.
Acordo cedo, e a campainha toca. Oito da manhã?! Estava tão sonolenta que não hesitei em atender de pijama mesmo. Um rapaz alto, magro... e achando que fosse um japonês! Eis que pergunta se era eu, sim era eu mesma... de pijama vermelho e tudo! Vermelho foi o que ficou meu rosto de tanta vergonha! Sorte que ele foi ao vizinho que me fez o dito "omiai" enrolar um pouco antes da gente sair...
Seis meses de encontros, desencontros, choradeiras compulsivas (de minha parte), noites bem passadas, resolvemos com cara e coragem... juntar as escovas de dente e partir para outra província e daí começar vida nova.
Eis que já estamos juntos há sete anos, apesar de algumas briginhas fúteis devido ao meu gênio explosivo por culpa da maledeta TPM que me assola todo mês, estamos em nosso novo lar apertado lar, perto (pero no mucho) da praia, da metrópole, das coisas mais boas ainda.
Se não fosse a força que meu kinguio encantado que me dá todo dia, acho que não estaria nem aqui, escrevendo este texto que pouca gente lê mas tenho certeza que tem que gente que acessa ( comentário que é bom, necas né?).
Devo muito a ele pelos seguintes impulsos que melhoraram e melhoram minha, a dele, a nossa vida:
- Saímos do meio do mato pra morar na província cuja capital é a segunda maior daqui;
- Fez-me escutar muita música japonesa, principalmente os dos anos 80 e 90;
- Incentivou-me a aprender a língua japonesa, pois eu estava muito crua em conversação (continuo meio titubeante, mas o suficiente pra conseguirmos alugar uma casa "por conta"), quase não escrevia, pouco lia...
- Graças a insistência diária, consegui obter minha carteira de habilitação japonesa e guiar nosso carrinho;
- (Ir)responsável por ter feito gostar de um cantor. Pior que a mesma pessoa que me fez gostar das músicas do moçoilo, tira sarro de mim toda vez que coloco o CD dele no carro;
- Devido ao fato de ter-me estimulado a estudar a língua japonesa, seja por curso, seja por conta, assistindo muita TV japonesa também, consegui o emprego onde estou hoje;
- Dá-me forças para continuar enfrentando as dificuldades do dia-a-dia de cabeça erguida, com o otimismo que depois da tempestade sempre vem a bonança.
Por isso, meu kinguio encantado, por mais que não goste de que lembre que faz mais um ano de vida, a gente acaba lembrando mesmo assim.
Ainda mais de uma pessoa especial também.
Feliz Aniversário, muitos anos de vida e que a gente continue juntos por muitos e muitos anos. Até a eternidade, se possível.
P.S.: Justo neste dia, teve um hiper-mega-evento em Sampa, né?

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