Thursday, November 23, 2006

Estudantes "kamikazes"

Lembram-se de quando éramos crianças e por algum defeito ou outro éramos rechaçados pelos "coleguinhas" de classe? E também nós dávamos o troco? E das gozações que recebíamos? E dos vexames nas aulas quando, na hora da chamada oral, dava aquel "branco" e não saía nada que prestasse, para alegria da classe? Da ida à diretoria por algo que não fez? E de ter seu lanche furtado, de pegarem seu caderno e devolverem todo estraçalhado? Quem nunca passou por isso, então está mentindo.
Como estudei o magistério e cheguei a lecionar, sei como são essas situações ( confesso que também fui vítima quando estudante, já começa pelas gozações raciais, com as típicas piadinhas, o mesmo quando contam piadas do português, falam que judeu é mão-fechada e acham que turco e árabe é a mesma coisa). Mas no Brasil, pelo menos, até onde eu sei, nunca ouvi falar de alguém que se matou por maus-tratos escolares (repetindo: escolares).
Por aí que cheguei ao ponto: aqui no Japão chamamos de ijime toda a forma de maus-tratos escolares: desde professores dando bronca em algum aluno que foi mal na escola, até os próprios "colegas" tentando extorquir dinheiro dos demais, seja ameaçando de morte seja judiando, do jeito que vocês pensarem como é a judiação propriamente dita. Só que diferente do Brasil, os casos de ijime chegam a fazer tanta vista grossa que, se fosse no Brasil, os pais já entram com mandado de prisão, se bem que não chega a esse ponto. Mas aqui, se os pais já fazem vista grossa, o que dizer dos diretores e professores (que por sinal todos eles já devem ter sofrido ou feito ijime)!
Desde que estou aqui, volta e meia os noticiários falavam que tal estudante se matou e deixou carta de suicídio. Ijime, estava escrito. Mas eram casos isolados, uma ou duas por ano e olhe lá. Mas recentemente, o ato consumado andou se proliferando, que em menos de um mês, mais de quinze casos de estudantes - de diversas idades, de 12 a 17 anos - se mataram por causa de ijime. Claro que esses quinze casos foram em províncias diferentes, porque se fossem em um mesmo lugar a gente chamaria de pacto suicida, mas mesmo assim já seria caso de calamidade pública.
O que está vindo a tona nos noticiários é que quase que diariamente está surgindo casos de cartas enviadas aos setores de educação informando de suicídio e denúncias de maus-tratos.
Só que nessa história toda, encontrar o culpado nunca é fácil. Fácil é pôr a culpa nos pais (pela educação pelos filhos), nos professores, nos diretores, no governo, na sociedade em geral.
Pôr a culpa nos pais por não conversarem com os filhos, não conviverem, somente pensando no trabalho e no bem-estar?
Pôr a culpa na entidade educacional que faz vista grossa e fingir que nada acontece?
Pôr a culpa no governo que pressiona a sociedade fazer o que precisa sem se importar com o bem-estar?
Ficam as respostas para cada um de nós. Fica difícil todo mundo pensar a mesma coisa, sempre terão pessoas que podem concordar ou discordar. Mas o ijime existe em qualquer lugar do mundo, por mais que neguem, existe sim.
Só fico pensando uma coisa: os estrangeiros que moram em outros países que não sejam a terra natal, como reagem perante ao ijime? Não cito exemplo dos brasileiros que moram aqui e dos japoneses que foram morar lá no Brasil, porque muita gente conhece a história e passarão diversas versões. Principalmente dizendo que o sistema educacional (tanto doméstica quanto escolar) são diferentes...
Um assunto para pensar por um ímpar de anos.

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