Saturday, April 29, 2006

As Coisas Evoluem Rápido Demais....

Lendo um artigo das "Garotas que Dizem Ni, a respeito de que duas décadas atrás para se fazer uma ligação no orelhão ( vale frisar novamente que no meu tempo era laranjão com o símbolo da Telesp)precisávamos de muitas fichas, por sinal enfileiradas em uma tira de papel. E a diferença das fichas para ligação interurbana? Lembram-se das fichas prateadas? Então...
Quando voltei de férias para a terrinha, espantei-me em ver orelhões azuis e verdes, e ter que capengar na hora de fazer um interurbano usando os ditos códigos 15, 21, sei lá, acho que por isso muito amigo meu ficou sem saber que estive de férias e nem bati um fio pra eles.
Sem falar no telefone celular. Pra mim, era um luxo desnecessário, só pra fazer peso na cintura ou exibir outra nova jóia. Aqui, fui ter depois de um ano morando e trabalhando, pois minha intenção inicial era ficar e juntar algumas lascas. Juntei algumas lascas, mas continuei ficando aqui. Acho que estou mais pra japonesa que brasileira, mas japonesa se esbaldar em pizza, churrasco e feijoada, aí tem algo errado...
Voltando a questão do telefone móvel.
Pois bem, se oito anos atrás, a função do dito-cujo era somente fazer e receber ligações, hoje pode-se assistir seu programa favorito de TV, acessar páginas da "yahoo!" e enviar fotos tiradas por você mesmo. Até fazer e receber ligações, claro. Na terrinha, fiquei embabascada de como o aparelho evoluiu de uma forma, do tipo, até o pipoqueiro da esquina tem o seu. Mesmo sendo pré-pago.
Aqui quase todo mundo tem. Digo quase, pois só me faltava os cães e gatos também terem o seu para ligar para marcar um encontro (lembra-se da piadinha e cantada meio furada "a cachorrinha tem telefone?"?).
Lembro-me de que ter TV a cores era um luxo. Luxo hoje é ter uma TV de tela plasma, pois tela plana quase todo mundo tem ( digo QUASE porque a minha ainda é normal, porém tem 29 polegadas e tecla SAP). Mas quem se lembra da TV que trocar de canal era na base do seletor que fazia "creeeeeeec-creeeeeec" quando virava? Isso se alguém lembrar que a TV era transmissão em preto-e-branco e usavámos uma tela azul, verde, ah sei lá, quem nasceu nos primórdios da TV, sabe do que falo.
E quando pedíamos ao pai para subir no telhado e ficar na base "o canal 5 pegou mas o 2 está cheio de chuvisco"? Quem tinha antena espetada no alto do telhado sabe do que falo, isso quando na época das primeiras parabólicas, quando dava um ventinho....
Pior foi saber que um conhecido meu dizia que no tempo dele ainda se usava o bom-bril na antena para ver se pegava a imagem melhor...
Controle remoto de TV, vinte anos atrás se baseava no irmão mais novo ou mais velho que passasse por perto e "dá pra aumentar o som pra mim", "troca de canal pra x". Mas quando eles perdiam a paciência já não tinha mais graça...
Pra quem assistia "Star Trek" a série clássica, nos anos 60 ficávamos imaginando se o teletransporte seria possível. Se fosse, poderia voltar pra casa na hora que bem entendesse. Quando falo voltar pra casa, digo a minha na terrinha, ao lado dos pés de alface e da linha de trem.


Uma volta na Enterprise, para onde nenhum homem tinha ido antes...

Thursday, April 27, 2006

O Dia que o Yamanote Parou

Imagine uma cidade com mais de um milhão de usuários de trens diariamente e um dia a linha principal resolve... parar!
Sim, foi o que aconteceu segunda-feira, dia 24. A linha principal circular da JR chamada Yamanote, cujo horário é de dois em dois minutos, resolveu parar. Devido problemas nos trilhos. Resumindo, muita gente teve que ir andando entre uma estação e outra para tentar pegar outras linhas (metrô, outras companhias) para chegar ao seu destino.

Seria mais ou menos se as linhas do metrô de São Paulo entrassem em pane e muita gente teria que pegar ônibus, carona...

Vez em quando, as linhas de trem sempre têm algum tipo de problema. Seja as interpéries, seja algum doido desiludido tentando se matar (isso tem todo dia). Mas quem pega a linha Yamanote todo santo dia (como eu), está sujeito a tudo!

Quando acontece, o negócio é encontrar o caminho mais fácil para se chegar ao seu destino, portanto, muita gente carrega o mapa onde contem todas as linhas de trem da região metropolitana, pois na hora do aperto, nem os funcionários conseguem resolver seu problema.



Já imaginaram se isso acontece todo dia???

Thursday, April 20, 2006

Caldeirão das Vaidades

Depois de quase quatro anos trabalhando como white collar em um escritório nos confins de Tóquio, aprendi muito nessas minhas idas e vindas de trem e no serviço em um escritório em que o telefone fica quente de tanto tocar e nossas orelhas idem.
Descobri que posso enganar meio mundo - no sentido mais inocente da palavra - pela minha aparência, que passo perfeitamente por uma japonesa, com direito a cabelo pintado e pele mais branca que neve... até a hora de eu abrir a boca e meu sotaque de interiorzão paulista entrar no meio. Das duas uma - ou o pessoal acha que sou japonesa poliglota e acabou esquecendo meio o japonês ou acha que sou filha de japoneses nascida em qualquer lugar do mundo, mas menos o Brasil (sim, tem gente que quando pergunta de onde eu sou, não acredita que eu sou nikkei brasileira...).
Descobri que existem mil possibilidades de conseguir pegar um trem para seu serviço quando sua rota está atrasada - perdi a conta de quantas vezes tive que fazer baldeação em trocentas estações sem ter que pagar a diferença devido a um acidente ou atraso. E consegue uma desculpa bem convincente para seu chefe por chegar atrasado, pois quando se sai da estação, os funcionários entregam um papelzinho informando que determinada linha estava interrompida, por isso atrasou, bla bla bla. Caso mais recente disso, foi mês passado, quando marcaram reunião geral às dez da matina e 90% do pessoal chegou uma hora atrasado...
As vantagens de ser mulher é que determinadas linhas de trem ( exemplos: Toyoko, Saikyo e metrô de Yokohama ), no horário da manhã e da noite, dois vagões são exclusivamente para mulheres. Pode não solucionar 100% do problema que é o assédio sexual (mais conhecido como ficar passando a mão em nossos lugares salientes e ficar espiando nossas intimidades de formas que até Indiana Jones, James Bond e MacGyver ficariam roendo os canivetes de inveja )mas que a gente consegue ir numa boa, isso consegue!
Tirando os cupons de desconto em lentes de contato descartáveis, salões de beleza, cabelereiro e até McDonald's com precinho mais em conta, perdi a conta de quantas vezes já peguei esses cupons, bem como amostrinhas de cosméticos, papel para tirar a oleosidade do rosto (aburatori) e lencinhos de papel. Tá, eles não resolvem muito quando se tem ataques de kafunshoo, mas na hora de retocar a maquiagem ou ir ao banheiro....
O lado meio negro de se trabalhar em um lugar chamado escritório, vamos dizer que é igual a qualquer lugar neste mundo, tirando trabalho em casa. As panelinhas. Chamo isso mais de fogueira das vaidades ou intrigas de oposição. Digo isso, pois como tenho mais de anos de casa, vejo gente entrar e sair, e sair também cada arranca-rabo que até eu ficaria envergonhada em ver gente que se dizer ter educação... Se bem que tem horas que realmente a gente perde as estribeiras, eu também já perdi as minhas em certas ocasiões.
Trabalho em um departamento que muita gente daria até a sogra para trabalhar lá. Tudo porque nosso serviço se resume em ligar e atender e negociar as divídas. E procurar devedor também faz parte do serviço. Mas não é fácil lidar com essa gente, tem que ter muita conversa mole e paciência, pois tem neguinho que liga com um caminhão de pedras na mão, se é que sentiram o drama. Quando é mulher então...
Daí tem gente da oposição que se não contenta e fazem de tudo pra "melar" nosso trabalho. Como fica tudo registrado, fica fácil encontrar o responsável. Daí chega dia de reunião mensal, sai aquela troca de gentilezas que fico horrorizada...
Tem gente que sei que fala mal da gente pelas costas. Fácil né? Eu já sou um pouco mais sutil: já digo - "ê laiá, tem gente que esquece disso e daquilo e depois a gente que se matar pra consertar".
Sem falar das panelinhas. Teve uma vez que nosso departamento resolveu comer fora num sábado, convidamos o outro departamento. Que recusasse o convite, ainda tudo bem, pior foi falar que não iria porque não gosta da gente. Bom, ao menos foi sincero. Em contrapartida, teve uma vez que o outro departamento fez um jantar e não chamaram a gente. Ficamos sabendo no dia seguinte.
Depois quando a gente faz nossa reuniãozinha na casa ou num izakaya legal, reclamam...
Como diriam, ninguém está contente com nada. Mas teriam que dar graças por estar longe de serviço monótono de fábrica.

Wednesday, April 12, 2006

Filhos? Melhor não tê-los

Antes que muita gente comece a jogar tomates e latas no computador ( o que não aconselho, pois além de ser desperdício, o prejuízo será muito maior do que simplesmente mudar de site ou tirar este site dos seus favoritos), explico melhor: perante muitas situações que ando presenciando, chego a conclusão que melhor não ter filhos. Sim, imagine aqui, onde nós, estrangeiros, a estabilidade de um emprego pode ser instável de uma hora pra outra. Imagine ter um filho aqui - já começa na demissão da mãe, que tem que faltar quase sempre por causa de médicos e enjôos, então já chega ao chefe e pede demissão. Se não tiver pagando seguro-saúde? Cada ida ao médico é metade do orçamento que se vai! Imagine somente o pai trabalhando, a renda financeira cai pela metade e olhe lá! E também ter muitos gastos, preparando o dito enxoval, comprando isso e aquilo e ainda cuidar da casa! Daí, um belo dia, o provedor da casa recebe bilhete azul e daí a situação se entorta de vez!
Mas quando se salva de receber o bilhete azul, imagine a aflição do provedor quando recebe o salário - além de pagar as despesas habituais, tem as despesas com médico, seguro, os caprichos da mulher - sim, as ditas vontades de fora de hora, como a vontade de comer pudim de jaca as duas da madrugada ou beber suco de abacate com melão quando não é época de um ou outro.
O nascimento do rebento, vocês acham que é aquela alegria? Imagine a despesa do hospital! Se tiver pago o seguro, receberão 70% do valor pago ... daqui a três meses! Enquanto isso, as despesas aumentam - fraldas, fraldas e mais fraldas. E idas ao pediatra. Quanto a questão de fraldas, quando fizerem o dito "chá do bebê", peça às convidadas que presenteiem com fraldas. Nunca será demais. E se você for visitar uma mãe recém chegada do hospital, nada de flores ou doces - mais fraldas! O bolso vai agradecer e você também não fica quebrando a cabeça pensando no que vai dar para a visita.
Quem disser que a dor de cabeça terminou, lamento dizer que só é o começo.
Chega a fase escolar. Um tal de gastar aqui e ali com material escolar. E tem que ser daquele, não pode ser similar barato não! Nas escolas, os próprios colegas fazem competição pra saber quem tem coisa melhor e assim vai. Fora os ijimes que os professores fazem vista grossa e os pais acabam por podar a educação dos filhos.
Chego a triste mas sensata conclusão que: filhos, melhor não ter mesmo. Poderia ser uma alegria? Depende do ponto de vista. Se têm, melhor o provedor vir aqui, suar muito e juntar dinheiro para garantir o futuro dos seus rebentos em sua terra natal. Aqui, lamento dizer, para estrangeiros o preconceito é muito grande bem como a adaptação é lenta.
Digo isso porque todo dia escuto as pessoas dizerem que "a situação está feia, meu filho adoeceu, gastei uma nota com hospital, minha mulher não trabalha....".
Nessas horas que sinto-me aliviada em ter feito a opção certa, ao menos no meu ponto de vista.

Thursday, April 06, 2006

O Preço da Vaidade

Aqui no Japão, nunca pensei que as mulheres ( e agora os homens ) tinham essa obsessão por salões de beleza e estética. Quando cheguei, há quase oito anos atrás, onde eu me escondia, era apenas salões de cabelereiro e olhe lá. Também, fui morar num lugar onde tinham mais tambo (plantações de arroz) que casas. Vez em quando, comprava alguma revista de moda para saber como se vestiam as mulheres locais, pois a necessidade de aprender mais a língua-avó era maior que a necessidade de tentar juntar algumas lascas. Justamente se precisasse de algo, teria que saber falar e entender a língua ou eu passava fome ou vergonha. Ou as duas coisas.
Bom, comprava de vez em quando as revistas "an-an" e "More". Ficava impressionada como as meninas de Toquio e Osaka se vestiam. Achava uma coisa meio... hã... descoordenada. Sabe do tipo usar uma blusa vermelha, calça laranja e tênis verde e achar que está abafando, sendo que mais parecia um semáforo ambulante. Se bem que em poucas idas para Osaka, realmente senti um pouco o drama. Poderia usar uma blusa verde limão e calça azul e passar despercebido na multidão, ainda mais que tenho mais cara de japonesa que qualquer nativo por aí ( e olha que sou 100% nikkei, passaria perfeitamente por um morador local, desde que eu entrasse muda e saísse calada, pois meu sotaque característico do interior denuncia).
As últimas páginas destas revistas ( e de muitas que já andei lendo ) ficam abarrotadas de anúncios de clínicas de estéticas. Do tipo - fazer dobrinhas nas pálpebras dos olhos para aumentar os olhos, desentortar pernas, eliminar gorduras locais, peelings e tudo o mais que imaginarem. E também a variedade de produtos de beleza, como cremes, loções e sabonetes, cosméticos para ficarem mais bonitas. Ou tentar, pois milagres dificilmente acontecem...
Pois bem, quando juntei as escovas de dente com meu kinguio encantado e mudamo-nos para Kanagawa (onde estamos há sete anos), a segunda vez que fui para Toquio (a primeira não conto, pois nem deu pra ver bem a cidade ), minha nossa, caí de costas! O jeito do pessoal se vestir, as inúmeras clínicas de estética, salões de beleza que você pode escolher à vontade, a preços variados.
Quando digo preços variados, você tem que saber escolher bem onde cortar o seu cabelo. Em quase oito anos, por três anos cortava meu cabelo em um salão dentro de uma loja de departamentos. O tratamento era excelente, direito até a massagem pra aliviar as dores nas costas. Se bem que os salões que frequento, seguem a mesma cartilha. Ultimamente frequento um na cidade onde moro, há dois anos. Ao menos parece que novamente acertei o corte após um ano sendo cobaia de alguns salões cujo resultado custou-me alguns fios de cabelos brancos. Uma coisa aprendi - ir em salão conceituado, pode levar algumas horas para ser atendido, mas o resultado é satisfatório. Ou em outras palavras, ir por indicação de pessoas que já frequentaram o dito salão.
Produtos de beleza, como os ditos cremes e loções, também aprendi na tentativa e erro. Teve produto que me ressecou a pele e teve outro que deixou a dita oleosa. Mas com o tempo aprendi a distinguir qual o produto que seria ideal para minha pele, indo em lojas de departamentos e conversar com a consultoria de beleza. Já indicaram produtos meio caros, mas também os mais simples. Se bem que acho que acertei, mas tenho que ter uma paciência de Jó e tempo disponível para fazer a limpeza de pele. E cabelo também.
Um belo dia, passando na estação de Ikebukuro, uma mocinha deu para mim um folheto que era uma promoção de uma clínica de estética. Mil ienes para massagem e tratamento facial. Resolvi marcar hora e ir visitar a clínica. Começa assim - um blablabla com a esteticista, limpeza com produtos da clínica deles, exame de pele para ver como ela estava, massagem, máscara, limpeza.... Pra depois na hora final, eles oferecerem os produtos (deles, claro) e tentarem empurrar para você na tentativa de vender e você utilizar. Tudo bem, se não fosse o preço.... O equivalente a meio mês de meu salário! Agradeci a oferta dizendo que eu ia pensar e retornaria.
Quem disse que retornei???
Chego a seguinte conclusão, conversando com minhas colegas: melhor pagar cerca de 30 mil mas vem a linha completa, mas completa mesmo de uma marca famosa ( vamos dizer: Chanel, Lancome, Estee Lauder, Christian Dior) do que 170 mil de uma marca que não sei se o pessoal já ouviu falar?
Atualmente utlizo os produtos desta marca! (Pelos menos eles também são 100% naturais e minha pele agradece.