Friday, September 21, 2012

Ponto de Vista



AVISO IMPORTANTE (para depois ninguém vier reclamando de que nem avisei, se bem que se a gente avisa, o pessoal reclama do mesmo jeito): ASSUNTOS QUE PODERAO GERAR DISCUSSOES CALOROSAS!


Podem achar estranho, mas ultimamente ando vendo (e presenciando) muitas situações que outrora talvez eu pudesse passar batido, mas agora estou tendo, digamos, uma visão mais crítica ou até mais  realista. Talvez muito se deva a muitos fatores que aconteceram comigo desde o ano passado.

Com isso, pesando os lados bons e ruins de algumas coisas, gostaria de expôr o meu ponto de vista perante isso, mas lembrando que é o que eu penso, minha opinião e, bem, sei que muita gente vai discordar até o último fio de cabelo.

Uma dos assuntos que eu às vezes eu detesto ter que comnetar, mas têm horas que temos a necessidade de fazê-lo, é a visão que muitos de fora têm uma visão de como é morar no Japão. Oras, eu poderia mencionar qualquer outro país. Mas porque Japão? Porque fazem quase quinze anos que moro no país e, apesar que muitos possam pensar que eu já tenha visto de tudo, na verdade não vi nem 30%.

O que eu sei foi através do quanto eu vivi e vivo aqui. Conhecendo todo o que é tipo de pessoas, lugares, way of life e por aí vai.

Vim parar aqui no arquipélago em maio de 1998 por curiosidade mesmo. Um pouco foi uma conversa com minha mãe em que ela sugeriu que eu passasse algum tempo morando fora e sozinha para eu aprender a me virar, mesmo porque morar eternamente na casa dos meus pais seria comodismo demais, muito embora eu levasse jornada dupla. Bem, eu já tinha terminado a faculdade, meu curso de inglês, estava solteira, descompromissada (do tipo "ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me diz 'eu te amo'") e uma certa estabilidade financeira, dois anos no Japão aprendendo a me virar até pra aprender a língua, eu não tinha o que perder.

Quando cheguei em Hikami (minúscula cidade da província de Hyogo), uma das primeiras coisas que eu tive que aprender a duras penas, foi obedecer as regras da cidade, como separação de lixo, o ritmo de trabalho, não fazer barulho depois das 10 da noite... Saber fazer compras sozinha (não que eu nunca tivesse feito, afinal, eu fazia para minha mãe), cozinhar, cuidar da casa, saber dividir o espaço com mais pessoas de diferentes pensamentos (quem foi universitário e morou em "república", sabe o que eu falo). Isso tendo que aprender na marra a falar tudo em língua japonesa, porque nem uma noção de inglês os moradores sabiam. (Isso depois de eu ter comido um ramen de pimenta vermelha achando que fosse de tomate porque o menu estava inteirinho escrito em japonês, em kanji e ainda caligrafado).

Depois de eu ter morado em Minamiashigara (Kanagawa) e Yokohama, hoje estou morando próximo a Tachikawa (Toquio). Antes que venham me dizer "caramba, você mudou bastante de emprego, hein?", ressalto que, nesses quatorze anos e pouco, morei quase nove anos em Yokohama e oito anos e meio no mesmo emprego, tá? O que eu quero dizer com isso?

Amigos leitores, nesse tempo todo, eu ouvi muitas pessoas comentando de como seria viver no Japão. Mas o que muito me entristece e decepciona, seria a visão de que o Japão seria assim ou assado. Pra quem mora muito tempo aqui, abrir os olhos dessas pessoas seria o mínimo que eu poderia fazer.

Morar no exterior a experiência é válida, claro. Mas quem vier morar em qualquer lugar que não seja o seu lar doce lar de origem, tem que estar preparado para muitas surpresas e isso falo sério. Se pra quem é do interior e vir morar na capital o choque já é grande, imagine morar no estrangeiro.

O que posso constatar nestes meus quase quinze anos morando no exterior...

1 - Tenha noção do lugar onde vai morar (o lugar em si, costumes, idioma...): Tudo bem que eu, por ser descendente de japoneses, eu tinha uma noção de como seria o Japão. Mas obviamente, sobre os costumes, eu teria que me adaptar logo que eu chegasse, porque eu ainda mantinha certos costumes do tempo dos meus antepassados. Inclusive em algumas palavras em japonês que eu tive que cortar do meu vocabulário porque caiu em desuso e/ou são tidas como pejorativas!!! Sobre guias... a não ser que venha a passeio mesmo, mas aconselho obter informações com pessoas que já moraram um bom tempo. Preferencialmente pessoas que trabalham em fábricas, que moram em cidades onde a contingência de estrangeiros seria menor do que se imagina. O motivo explicarei em instantes. Mas, o importante mesmo é saber como é o lugar, para não acontecer com um certo grupo brasileiro que veio parar aqui no Japão e falaram que aqui servia insetos como aperitivo!!!

2 - Pegue opiniões de diferentes pessoas: Quando eu quis dizer que uma das melhores coisas de obter informações do país que quiser visitar e/ou trabalhar era trocar idéias com pessoas que trabalham/trabalharam em fábricas, no serviço pesado mesmo, porque elas sim, dão o lado mais realista de quem mora no exterior. Eu explico.

Sabemos que as pessoas vão pro exterior de diversas formas e motivos. Tive uma prima que ficou dois anos na Inglaterra estudando, mas nesses dois anos, ela trabalhava como babysitter na casa onde ficou hospedada. Contou-me que não foi fácil, porque a família era muito rigorosa. Mas como ela tinha muita paciência, enfrentou os dois anos e hoje aposentou-se como secretária bilingue em uma multinacional no Brasil. Esse seria um exemplo.

Vamos ao ponto que se trata aqui no Japão. Acompanho twitter e vejo tweets de muitas pessoas querendo saber como é o Japão. Olha, não querendo desanimar ninguém, mas temos que mostrar o "outro lado", antes que a pessoa chegue aqui deslumbrada e acaba se decepcionando. Melhor chegar com os pés no chão para não se arrepender depois.

Eu digo por experiência própria. Minhas primas que vieram antes, já me advertiram de que nem sempre consegue um trabalho dos sonhos, nem sempre seu diploma é valorizado, nem sempre vai ser bem tratada (o). Vamos dizer: já fui ciente de que trabalhar aqui seria um desafio. E até hoje continua assim.

Existem diferentes tipos de pessoas que vêm para cá com diversos propósitos. E com diferentes opiniões posteriores após uma temporada. O que eu já ouvi nesse tempo todo...

(Nota: isso seria do que eu presenciei, mas vocês podem ter ouvido de forma diferente, que seja...)

 Ponto de Vista de um Turista: Num apanhado geral, os turistas vão para lugares turísticos (coisa mais óbvia nééé...), como Asakusa, o mercado Tsukuji, Tokyo Tower ou Tokyo Sky Tree, Kyoto, Hiroshima, Nagasaki... E claro, bater ponto em Akihabara para comprar seu notebook de última geração (ou qualquer badaluque que lançou segundos atrás). E claro, vão falar que quer voltar novamente porque tudo é organizado, limpo e moderno (bem, isso nem eu nego). O lado ruim de obter algum dado com turistas é que, como eles vêm em grupo, eles têm que seguir o itinerário proposto pela agência de turismo. Salvo exceções, porque conheci pessoas que vieram por conta.

Ponto de Vista de um Estudante/Bolsista: Muitos querem pegar esse tipo de pessoa, botar num espeto, arrancar as tripas e servir como assado pra uma nação faminta. Porque essas pessoas, apesar de penarem pra conseguir uma bolsa de estudos, chegam aqui com vários privilégios. Ouvi até que são bem tratados, chamam quase sempre pra nomikai, trabalham em pesquisas, e quando a gente tenta explicar que a coisa não seria bem assim, somos tratados como se fosse a pior escória da face da Terra. Têm exceções, claro, de estudantes/bolsistas que trabalharam no pesado nas férias escolares para ajudar nas despesas e entenderam o quanto é duro conseguir o suado dinheiro nosso de cada mês. E essas pessoas respeitam muito mais as pessoas que trabalham em fábricas.

Ponto de Vista de quem trabalha em fábricas: Sim, minha gente, eu me encaixo nessa categoria. Eu sei que, quando vim parar aqui, teria que estar muito ciente de que iria pertencer a uma das classes mais baixas da sociedade, em todos os sentidos. Por mais que você tenha uma noção do idioma, tenha um diploma universitário, e ser descendente, você raramente vai ser bem tratado. Quando digo raramente, é que existem pessoas que tiveram muita sorte mesmo.

Quando aceita vir pra cá trabalhar pra poder garantir alguns fundos, já deveriam preparar a pessoa psicologicamente de que o trabalho a fazer nem sempre é aquilo que se espera. Mas também, se falam toda a realidade, a pessoa desiste na hora.

Ninguém encontra um trabalho que agrade 100%, mesmo porque se agradasse ninguém largaria o osso. Sempre tem alguma coisa que empecilha - se o trabalho em si agrada, os colegas são chatos; se o trabalho é meia boca, os colegas são legais; se o trabalho é bom e os colegas idem, a cidade é horrível (ok, mas isso a gente supera); e se tudo não agrada... sinto muito, o jeito é batalhar pra conseguir algo um pouco melhor (ou menos pior).

Muitos que conheci, têm diversas opiniões sobre aqui. Teve gente que odiou até o último fio de cabelo. Teve outros que gostaram apesar dos apesares. Eu sei que tem gente que venderia até a alma para vir aqui mas não consegue de jeito nenhum. Tem gente que reclama, reclama, reclama, mas continua aqui. Tem gente que se acostumou tanto com o modo de vida aqui que pensa em se aposentar aqui mesmo (não chega tanto a ser o meu caso...)

Por que eu aconselho obter informações com essas pessoas, os dekasegi? Porque elas têm a visão bem mais realista do modo de vida aqui. Que não é fácil encarar dez a doze horas de trabalho em um lugar fechado, alguns insalubre, de horários alternados, folgas variadas, chegando ao ponto de que nem nos feriados têm perdão. Enfrentar chefia e colegas de trabalho que pegam no seu pé o dia todo. Que sofrem cobranças de todos os lados. E no dia a dia, ter que tentar se virar nos trinta para entender o idioma, dependendo de onde se mora, claro.

Mas se essas pessoas não são daquelas que aproveitam o tempo livre para conhecer o local, aprender novas coisas, especialmente o idioma, não se diverte, não aproveita a vida, também não dá pra conversar com elas.

Na real: eu tento fazer de tudo para aproveitar meu tempo ocioso, como conhecer mais a cidade onde vive; estudar algumas horinhas; assistir filmes ou doramas; noticiários. Meu tempo é apertado pra caramba? Sim, eu reconheço que sim. Mas o tempo livre que eu tenho de sobra, tento fazer o possível para aproveitar, inclusive momentos de procrastinação, eu reconheço. Mas cada um tem seu modo de vida, nem podemos interferir ou mudar, da mesma forma que ninguém pode fazer o mesmo do meu.

O melhor jeito é conversar com várias pessoas e você mesmo tirar suas conclusões, viajar e enfrentar as possíveis adversidades, como errar a cidade, confundir iogurte líquido com leite, ou comer ramen com pimenta achando que era molho de tomate.

5 comments:

  1. ^^ Vc sabe o que eu acho daí, vc sabe que tenho alguns "privilégios", vc sabe que dou valor para cada centavo que ganho, vc sabe que dou valor para quem está aí no japão diferente de mim e que tem que dar muito mais que eu... vc sabe de tudo isto, e é por vc saber e me respeitar e eu por saber um pouco do que vc passa e te respeitar que nos damos bem... tenho maio orgulho de vc pq sei o quanto batalha por tudo que tem! ^^

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    1. Gesiane, no momento que as pessoas entendem (e sentem até) o que as outras passam e saber respeitar e até compartilhar, a probabilidade de ambas se darem bem é grande. No momento em que perde-se esse respeito, fica difícil estabelecer algum laço.
      Conheci muitas pessoas aqui, de diferentes pensamentos. O que mais me doía era gente que dizia que, "quem está aqui trabalhando em fábrica tem mais que se ferrar mesmo, não mandei vir, a escolha foi sua", etc. E quem falava isso era gente que vinha como estudante, bolsista...
      Deixava-me triste, verdade, mas nunca me esmoreci e segui adiante, batalhando sempre para melhorar a cada dia, não importa quanto tempo durar.
      Beijão, querida! ^^

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  2. Olá Kiyomi,

    Essa questão das pessoas se iludirem com um lugar distante é muito comum e não acontece apenas com o Japão. Muita gente tem uma visão distorcida de como é viver na Europa e nos EUA também.

    As pessoas acabam pegando apenas a parte boa da história e idealizam um lugar perfeito e decidem largar tudo aqui para ir morar fora achando que tudo será ótimo. Eu acredito que não existe nada perfeito nesta vida e temos que fazer escolhas constantemente. Ao optar se optar por ir morar em outro país, as pessoas tem que estar cientes que terão de abrir mão de algo para conseguir atingir outro objetivo.

    Acho primordial pesquisar bastante antes de tomar uma decisão de morar fora com base apenas em opiniões de poucas pessoas.

    Mesmo entre os dekasseguis as opiniões são bem divergentes. Há aqueles que amaram a experiência e aqueles que detestaram. Existem aqueles que reclamam da falta de liberdade, da rigidez japonesa, da falta do povo caloroso...aí você percebe que essa falta de liberdade que ele sente falta é a mesma que permite que ele faça barulho em plena madrugada, assista TV e ouça música em alto volume sem se importar com os vizinhos...

    A vida é feita de escolhas e cada um tem que fazer as suas com base no que é mais importante no momento.

    Desde que voltei da primeira vez que fui ao JP, vivo em "conflito" refletindo e pesando os fatos para decidir se fico ou se vou...Aqui temos muitas coisas boas mas cada vez mais estamos nos privando de sair, de comprar, de viver por causa da violência. Muita gente ainda me pergunta se eu não tinha medo de morrer no JP por causa de terremoto ou outra catástrofe. Eu respondia que preferia morrer em um terremoto pois é uma causa natural do que nas mãos de um bandido...

    As únicas coisas que me mantém aqui são minha família e o meu serviço. Se conseguisse um serviço mais leve e não tão desgastante quanto fábrica já teria ido de vez.

    É uma decisão complicada...parecida com a que o Toshi soltou semana passada no FB ("é melhor fazer o que gosta e ganhar pouco ou fazer o que não gosta e ganhar bem?").

    Mas tem o fato também de que após muito tempo em um lugar você começa a ficar intolerante com os problemas locais e começa a reparar apenas nos defeitos do local...Sinceramente estou cansado de viver com medo, de ter medo de sacar a câmera fotográfica no meio da rua, de ter medo de voltar tarde da noite para casa, medo do restaurante que estou sofrer um arrstão, etc. Quem lê isso acha que sou paranóico mas vivo normalmente, saio com os amigos e tento sair de noita (embora raramente). Mas a sensação de preocupação é constante. Não fico bitolado com isso, mas é como se você ficasse tenso e não relaxasse.

    E depois que você vai para um lugar que não existe essa sensação e você tira esse "peso" das costas, fica difícil acostumar com a realidade daqui novamente. Por outro lado tem pessoas que vivem com a insegurança sem se preocupar muito. Inclusive tenho um que já foi vítima de sequestro relâmpago mas não vive tão tenso como eu...

    A vida no Japão não é fácil, mas se encontrar um certo equilíbrio (com um serviço não tão desgastante), ainda acho que é melhor do que viver aqui...

    Abs,
    Carlos

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    1. Oi Carlos!
      Acho que melhor que você para entender melhor como seria a vida fora de casa. Quem vem tentar alguma coisa fora, tendo que jogar tudo pro alto e arriscar, a pessoa tem que estar muito bem preparada para encarar. Pode ser outra cidade como outro país.
      Tinha exemplificado o Japão, porque seria a visão de quem está muito tempo aqui. Mas claro que poderia ser outro lugar. Da mesma forma que eu queria saber muito como seria viver em outro país, tal como eu tenho uma amiga que mora na Suiça (devido ao fato de ter casado com um suiço), às vezes ela contava como era viver no exterior, muito embora tivesse morado e trabalhado dois anos no Japão.
      Sim, ouvi e ouço muita gente reclamar da "falta" de liberdade aqui, da rigidez, essas coisas. Queria ver se no BR, ele poderia sair tarde da noite para ir a conveniência da esquina e voltar sem ser assaltado ou sequestrado.
      Obvio que qualquer lugar tem seus prós e contras. Ao mesmo tempo que sinto falta de minha família, sinto que, se eu voltar eu perderia também uma das coisas que mais prezo que seria segurança.
      Nao sei se é porque meus irmãos conseguem ser bem mais tranquilos, mas fazem quase vinte anos que o mais velho mora na capital e nunca foi assaltado e sai tranquilamente. Bem como o mais novo costuma sair com os amigos. Mas fico me perguntando se,quando eu voltar de vez eu conseguiria viver normalmente.
      Mas resta a esperança de que melhore.
      Abraços!

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  3. Está aí uma das coisas que gosto muito do seu blog, você escreve realmente de como é a vida aí. Não que nunca tenha passado pela minha cabeça que viver no Japão não é flor que se chegue... Sei muito bem que as pessoas que vão aí para trabalhar e ganhar algo a mais na vida sofrem e é claro em qualquer lugar do mundo é assim. Nem o Brasil também é flor que se chegue ou eu estou mentindo?
    Te respeito muito, te acho corajosa por estar a quase 15 anos enfrentando problemas mas sempre tentando ver o lado bom das coisas, sempre encontrando um precha para felicidade pois a felicidade existe para todos mas cabe a cada um de nós enxergá-la.

    Kisu

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