Saturday, July 22, 2006

A Vida não é tão Bela assim (para outros)

Quem me conhece, sabe que mais assisto e leio noticiários japoneses mais porque Veja é difícil chegar aqui, Estadão impresso só quando voltar a terrinha e não tenho antena paranóica nem TV a cabo (digamos que a antena em casa não dá sinal e a TV a cabo ainda fico sempre de ligar pra imobiliária que tem esse sistema pra instalar em casa...). Notícias do Brasil, se a conexão com a internet está rápida, eu e kinguio conseguimos ver o Estadão on line, para ficarmos por dentro do que acontece na terrinha, que por sinal não anda lá aquelas coisas, mas...
Bom, sobre noticiários japoneses. Todo dia antes de ir pro trabalho e depois que volto, sempre acabo ligando a TV para ver o noticiário. Previsão do tempo e se tem algum problema nas vias férreas, são de praxe, mas claro que pego para assistir outros programas também. E outras partes do noticiário, pois se não entendo tudo, a metade ainda vai lá (uma das formas de aprender a ouvir a língua japonesa...) e dá pra entender o resto. Isso se pegar o começo da notícia, melhor dizendo.

Suicidas de ontem e hoje
Todo mundo sabe e está mais careca que ovo em saber que aqui no Japão o índice de suicídios é altíssimo. Diferente dos camicazes da Segunda Guerra, que se matavam para honra e respeito à pátria e depois suicidavam-se de vergonha da derrota, os suicidas atuais vão desde o coitado do estudante que levou nota vermelha no boletim até o bem-sucedido artista ou funcionário de uma hipermegaestatal. Estou falando sério, todo dia, tem uma dezena de pessoas se matando. De uns tempos pra cá, era uma onda de gente desconhecida se encontrar nos fóruns de suicidas pra marcar um primeiro e último encontro. Local e data marcadas, um carro alugado, uns briquetes de gás e quatro pessoas dentro, no dia seguinte seria motivo de estar nas principais notícias dos jornais. Pena que conseguiram a fama pós-mortem.
Além de tudo isso, volta-e-meia a linha Yamanote, a linha circular de trem da Japan Railways que costumo pegar para ir ao serviço, pára. Quando fala "jinji", pode ter certeza que foi "jinshin jiko", ou isto é, alguém pulou na frente do trem de novo. Além do atraso, pessoal revoltado, a família do suicida tem que pagar o prejuízo.
E quando alguém se joga do prédio? Semana passada, na famosa loja de departamentos de Shinjuku, Takashimaya, foi palco de uma cena destas. O homem se joga do 13o andar, além de se matar, queria levar mais três junto! Entenda-se que, ao cair, três pessoas que nada tinham a ver com o peixe, quase foram desta pra melhor. Sem saber porquê!!! E pensar que foi no dia da minha folga e decidi ficar em casa...
Por quê estudantes se matam?
Inúmeros motivos. Os mais clássicos são falha nos estudos e maus-tratos. Os japoneses têm ainda em mente que "se fracassar, não terá uma segunda vez". Vamos dizer que, os pais investem uma grana preta para que seus filhos estudem e consigam algum emprego, digamos, decente. Quando o filho, mesmo se matando (metaforicamente falando, claro) de estudar, aparece com um boletim vermelho, acaba por se matando, no sentido literal da palavra. Imagine se essa moda pegasse no Brasil, quando um vestibulando não consegue vaga na USP ou FGV...
Os maus-tratos, aqui conhecidos como ijime, seria o equivalente ao veterando de escola com um calouro. Se não fizer de acordo com o que os veteranos impõem, vai desde humilhação até extorsão. E os pais nada fazem pois os filhos não falam e a escola faz vista grossa. Resultado: corda ou estilete + bilhete aos pais = adeus mundo ingrato. As maiores vítimas? Meninas, pelo fato de não acompanharem a moda, o que seria pano pra manga para outro assunto.
Afundados em dívidas
Quando foi a época da "bolha econômica", no início dos anos 80/90, todos conseguiam comprar tudo o que queriam, todos enriqueceram. Porém, depois da quebra da bolsa em Nova York e muita coisa mais que mudam na economia atual, teve muita gente também que se afundou em dívidas. O mesmo princípio do vestibulando fracassado: o assalariado que não consegue se reerguer, por vergonha junto à família, acaba por cometendo suícidio. E de preferência coletivo sem antes fazer um baita seguro de vida cujo beneficiado seria a família, como foi o episódio de quatro executivos de uma grande empresa que se mataram num quarto de hotel. Ultimamente, se não estão escondidos em uma casa de telhado azul (eufemismo para as lonas das tendas dos sem-teto daqui), já se entupiram de veneno ou se jogaram diante de um trem...
Angustiado com tudo, tem gente com o mesmo problema
Unidos, jamais seremos vencidos. Será? No caso de suicídio coletivo, muita gente apela pela tecnologia chamado fórum via internet. Basta entrar em qualquer site relacionado a suicídios, entrar no fórum e marcar encontro com uma ou mais pessoas. Foi-se o tempo que marcar encontro com gente desconhecida era pra quem queria novas aventuras, como brincadeirinha a três ou coisa parecida. Agora encontro coletivo é sinônimo de ... trancar-se no carro com dois briquetes de gás carbônico e todos vão brincar do outro lado da vida, se é que me entenderam...

A coisa anda tão feia que muita gente está preocupada com o aumento de suicídios no país! Este artigo (em inglês) dá pra sentir o drama e está virando até caso de pesquisa e polícia (este no sentido mais literal da palavra).

Depois tem gente que morre de vontade de vir pra cá porque é fácil...
Tá, venha preparado senão o próximo suicida será você!

O trem e o percurso preferido pr'aqueles que querem uma viagem sem volta...

1 comment:

  1. Gostei Iwa ! Pois eh , outro dia conversando com um japa ele nao sabia mas , depois da bolha houve um indice altissimo de suicidios !
    Materia muito interessante !
    Contnue escrevendo , estarei aqui mesmo de longe para prestigiar o seu trabalho !
    Um beijo

    ReplyDelete