Wednesday, August 11, 2010

A Cidade Perdida no Meio do Arrozal

Para quem está doze anos morando no arquipélago, até que não mudamos tanto assim de cidade. Por enquanto três cidades e sem previsão de mudar. Talvez somente de apartamento e continuar na cidade de Yokohama - resta saber em qual distrito, já que tem dezoito a escolha do morador e saber as vantagens e desvantagens de cada uma delas (onde eu moro por enquanto está de igual pra igual).

Acho que nunca comentei, mas Yokohama é a terceira cidade que moro desde que estou aqui no Japão. A primeira cidade, logo que cheguei aqui, ficava num lugar o que poderia dizer "a cidade perdida no meio do arrozal" de tão interior que era. Certo que eu queria tranquilidade, mas nem tanto assim a ponto de quase tudo fechar às nove horas da noite.

Hikami, cidade minúscula no meio de Hyogo (sim, a mesma província onde se deu o terremoto de Hanshin-Awaji), era bem típica do interiorzão. E eu que reclamava que no Brasil eu morava numa "vila perdida no meio da cana", fui morar numa "vila perdida no meio do arrozal". Quando você sai da cidade grande e vai pro interior, vai entender o que falo. Fui perceber que Hikami ficava no meio das montanhas quando, o trem [1] que peguei de Osaka para lá, no momento que comecei a ver mato, arrozais e montanhas. Estação onde o trem parava, não dava para ver nada. A cidade ficava onde? Se houvesse cidade.
Estação de Isou, em Hikami (hoje Tamba). Pra terem a noção de como seria a cidade....
Duas horas depois, cheguei ao destino. Estação de Isou. De um lado da saída, montanha. Da outra saída, mais montanha. E um pouco da civilização. Já estava vendo que teria que me virar sozinha numa cidade onde de um lado era montanha, do outro, um monte de arrozal. Digo assim porque 1) a cidade era tão pequena, mas tão pequena que para parecer maior as casas eram espalhadas e 2) a contingência de estrangeiros era menor do que se esperava. Se tivesse vinte brasileiros morando lá, era muito. E trabalhando na mesma empresa.
A cidade, vista do alto de Shinoyama. Exagero que falei das montanhas?

Instalada num apartamento onde se abria a janela dos fundos, tinha o arrozal e ao sair de casa, a montanha. Para ir ao trabalho, era de bicicleta. Pelo menos a cidade era plana, raramente haviam ladeiras. Aliás, usava a bicicleta pra quase tudo: desde trabalho até compras.

O tempo que morei lá, pelo menos um ano e quatro meses, vou contar a verdade: eu era tão medrosa em me perder, não saber chegar e depois voltar de trem, errar estação e perder dinheiro, que eu pouco conheci da cidade, apesar da mesma ser pequena. No máximo que fui foram Fukuchiyama (Kyoto), que era o ponto final (ou inicial) da linha Fukuchiyama, a gente ia pra pegar comércio; Kobe, o qual fui no Illuminarium do final de ano e Osaka, ponto final de quem vinha da cidade perdida no meio do arrozal  de Hikami, onde comecei a frequentar a Tower Records e a loja de departamentos de Umeda.
Miwakare no Koen, lugar ótimo para passear com a família, com o cachorrinho, relaxar, fazer um piquenique...

Daí explica-se que daquela cidade eu tenho muito pouco registro. Fotos, então... Como eu era recém chegada do Brasil, a noção de preço e ainda por seis meses seguidos paguei a minha passagem (devidamente descontada do meu parco salário) a ponto de ter mês que tive dinheiro somente para comida. Naquela época, nem pensava em adquirir telefone celular. Como comunicava com meus pais? Comprava aqueles benditos cartões pré pagos e ligava do telefone público e uma vez por mês quando era algo muito urgente, senão era via carta.

Opções de diversão em Hikami, era o parque Miwakare no Koen, que dava para ver a cidade do alto. Costumava ir aos finais de semana para andar um pouco, esquecer do trabalho durante a semana... Mas como "tudo era novo", comecei a frequentar muito livrarias, bibliotecas e a única loja que vendia e alugava CDs, DVDs (confesso: foi lá que comecei a comprar os primeiros singles, os primeiros CDs...)

Apesar de atualmente estar morando "na cidade grande", às vezes penso em voltar para lá nem que seja pra bater perna e relembrar os tempos em que diversão seria ir ao parque e ir de trem até Fukuchiyama. Muito embora em 2001 fomos para lá, de carro compensa no sentido de que o valor pedágio-combustível saía bem mais barato que duas passagens de trem + shinkansen ida e volta. Mas o que mata foram as doze horas de viagem que não terminavam nunca (sendo que de trem + shinkansen) levaria cerca de três a quatro horas.

Sem contar, que na verdade, foi naquela cidade perdida no meio do arrozal que conheci o namorido que me aguenta até hoje...

Como faz pra chegar, dona Piggy? Se quiserem conhecer a hoje cidade de Tamba (formada pelas "cidades" de Kaibara, Hikami, Ichijima, San-nan, Kasuga e Aogaki), estando na estação de Osaka, pegar o trem da JR West Fukuchiyama Line sentido Fukuchiyama. Se pegarem o trem expresso, pode descer na estação de Kaibara e conhecer a cidade de ponta a ponta.

Fotos: tiradas do seo gugol, pois infelizmente a autora possui muito muito pouco registro de lá, mas quando der na telha, a autora pode surtar e de repente ir passar um dia todo em Tamba pra registrar o que deixou de ir, pois nunca é tarde (ainda mais que, pelo jeito a cidade pouco mudou...)

[1] Fukuchiyama Line: uma das linhas de trem da Japan Railway (JR) que segue no interior de Hyogo. Ficou mundialmente conhecida devido ao ser um dos protagonistas de um dos piores acidentes de linha férrea que o Japão teve em quase 50 anos.

6 comments:

  1. Que legal conhecer um pouco mais da sua história, deve ser uma cidade bem pacata essa não? Mas fiquei curiosa pra saber como vc conheceu seu namorido.

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  2. O que eu posso dizer? Achei essa cidadezinha linda!

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  3. A cidadezinha perdida no meio do arrozal... Nome legal para um filme ou livro. Autobiográfico, talvez.

    Um piadista diria que essa cidade é "de primeira", pois se engatar a segunda já saiu da cidade. Mas foi aí que começou a sua história no Japão, e é cheia de significado.

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  4. Nossa, qta montanha! Parece Yamanashi! Onde moro é mais ou menos do tamanho de Kariya, que vc conheceu. Mas já morei uma época numa cidade bem pequena assim, em Shiga. Era muito isolado de tudo.

    Meu Deus... nesse lugar tem trabalho pro pessoal? Pq só tem arrozal!
    Então não era longe de Kobe, pelo q vc descreve. Eu amo Kobe, o porto, a cidade. Então pelo menos tinha alguma coisa pra ver rs. Agora pelo menos vc tá em uma cidade bem legal, pq essa tal de Hikami é mato demais, mesmo pra mim que gosto de interior.

    O acidente dessa linha eu lembro, foi feio mesmo. Falou-se durante muito tempo nele, não é?
    bjs

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  5. Desabafando, foi a primeira cidade que morei aqui no Japão. E põe pacata nisso! Sabe aquelas cidades do interior, mas bem interior mesmo, como disse MP Kouhaku: cidade de primeira, engatou a segunda marcha já saiu da cidade rs
    Quanto a história de como namorido me conheceu e vice versa, aguardem!

    Felipe, isso porque as fotos são do alto do morro... Sabe cidade com aquelas casas beeeeeeem antigas? Pois é...

    MP Kouhaku, eu deveria ter posto "a cidade no meio das montanhas", pois o que tem de montanha em Hikami, nem falo. Mas aí vão pensar que morei em Nagano ou Yamanashi...

    Alexandre, onde você mora, perto de onde morei, Kariya seria "cidade grande". Como você morou em cidade onde tudo era longe, até pra ir numa conveniência seria uma viagem rs
    Trabalho, tinha: a montadora de celulares da Mitsubishi, onde trabalhei. Tem outras firmas, sim. Mas nada relacionado a arroz.
    Ah, Kobe era longe de onde morei sim: só pra chegar em Osaka, levava DUAS HORAS de trem!!! Imagine de carro quanto tempo a gente levou quando fomos ao Illuminarium.
    A linha que houve o acidente, era a mesma que eu pegava quando ia pra Osaka. E até hoje o pessoal ainda lembra - quando se fala quesito segurança.

    Beijos e abraços a todos!

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  6. Ai que saudades grandes dai c nem imagina rs... Não conhecia os arredores dai não, adorei as foto, deu pra matar um pouco das saudades...

    Kisu!

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