Creio eu que já havia feito uma postagem sobre nomes e apelidos, e não me recordo se eu havia explicado a origem do meu nome e do apelido (de infância) que tenho até hoje. Mas às vezes recordar é viver, vou tentar explicar até onde sei, segundo minha família.
Como a maioria da família de descendentes de japoneses radicados fora do Japão, quem é neto de japoneses - dependendo até filho - acaba tendo dois nomes - o nome "estrangeiro" e o nome japonês. Parece que fica nome composto, mas não é. Meu caso é semelhante à maioria dos sansei (neto de japoneses nascido fora do Japão), principalmente aqueles que nasceram depois da Segunda Guerra Mundial (estudem História).
Meus pais, filhos de japoneses, têm o nome japonês e o sobrenome, mas tenho tios que, por terem nascido depois de 1945, o cartório proibiu de ter nome japonês, aí foram aqueles nomes mais comuns que existiam naquela época mas com o nome japonês no meio. Aí os nisseis constituem família por volta dos anos 50 em diante, os filhos acabam tendo o nome "estrangeiro" e o nome japonês (dependendo da família, ou era só o nome "estrangeiro" ou só o nome japonês, mas era muito difícil - pelo menos pessoal da minha geração - o filho ter o sobrenome de solteira da mãe). O que dava MUITA mas MUITA confusão para quem não entendia o motivo, achavam que o nome japonês era tradução do nome estrangeiro. Fora os insultos que a gente tem que ouvir até hoje.
Meu primeiro nome - Eliane - até hoje é motivo de erro na hora da escrita. Quantas vezes eu precisei soletrar porque muita gente escrevia ou Eliana ou Eliani, e ainda o pessoal vinha com o bônus "ah, mas tanto faz". Isso porque nem no Japão escapei, porque na hora de escrever em katakana, saiu Eliana mesmo tendo TODA A DOCUMENTAÇÃO escrito de forma certa. Enfim.
Quando perguntava para minha mãe de onde ela arranjou o meu nome, ela deu duas versões - minha mãe gostava de uma atriz franco-brasileira dos tempos da Vera Cruz, a Eliane Lage. Embora eu tivesse nascido no ano em que o Brasil foi Tricampeão da Copa, minha mãe quis que quis que fosse o nome da atriz (nem sei na época ela estava atuando). A segunda versão, que fosse a mais aceitável possível, era a marca de azulejos muito famosa.
Isso porque nasci no dia de Santa Ana, avó de Jesus.
Se for estudar o meu nome, acaba gerando pelo menos duas origens - Eli vem do hebraico, que significa "meu Deus" e Ana que significa "graça", daí juntando tudo pode significar "Deus é minha graça" ou "minha luz é Deus".
A segunda origem é francesa e grega, porque Eliane deriva do francês Éliane, relacionado ao grego Helene e a palavra helios que significa sol, ou seja "iluminado", "radiante" ou luz do sol.
Pode ser coincidência ou não, mas não basta eu ter nascido no final de julho, o que eu seria do signo de Leão, o primeiro decanato - meu signo além de ser elemento fogo, meu ascendente é Leão também e regido pelo... sol.
O mais surreal foi quando fui cursar magistério, numa classe com vinte meninas, éramos QUATRO com o mesmo nome, o que gerava muita confusão na hora de chamar atenção por causa de conversa paralela e as quatro respondiam junto "mas qual delas??" Aí vem o motivo pelo qual muita gente do tempo que estudei (desde o jardim-de-infância até o último ano do Magistério, estudei na mesma cidade que todo mundo) me conhecer mais pelo apelido do que pelo meu nome em si.
O apelido - Nane - veio porque meu irmão mais velho (dois anos e meio de diferença) não conseguia falar meu nome inteiro. E como a gente nasceu e foi criado em uma cidade minúscula, e meus primos mais velhos eram nossos vizinhos, na hora de me chamar, não era pelo meu nome, e sim pelo apelido, e as crianças do bairro onde morávamos, me chamavam pelo apelido - que, até hoje, quem conviveu comigo até eu vir parar no Japão, me chama até hoje. Por isso que na escola até os professores me chamavam pelo apelido, nunca pelo nome. E não é Nani. É Nane, mas na hora de pronunciar o e vira i, essas coisas acontecem, e por isso que no Japão eu nem menciono meu apelido porque nani em japonês é pergunta para "o quê foi".
Até eu vir para o Japão, nunca fiz questão de explicar o meu nome do meio - Kiyomi. Mas em todos os lugares que eu trabalhei, todos me chamavam pelo sobrenome, é normal. Mas na hora de fazer registro em banco ou qualquer coisa que não fosse prefeitura, imigração e carteira de habilitação, eles tiravam meu primeiro nome e mantinham meu nome do meio (japonês) por falta de espaço no formulário. O que no agência bancária do correio deu tanta dor-de-cabeça que acabei encerrando uma conta que tinha desde que vim parar aqui porque meu nome não batia com nenhum registro mesmo eu tendo os dados, isso porque eu queria apenas acertar o nome.
Lembrando que no início dos anos 90, ninguém estava preparado para a onda dekassegi que teve seu auge nessa época, e muitas repartições como bancos e qualquer lugar onde fizesse cadastro, tinham que reduzir por falta de espaço, ainda mais que se escreviam em katakana. Mas felizmente os formulários mudaram e tem muito espaço para colocar o nome completo mesmo em katakana (tenho pena daqueles que leva o sobrenome da família completa, para preencher e falo sério, porque já trabalhei com cadastramento de dados aqui na época que os formulários ainda tinham quadrinhos limitados, cada quadradinho era um caracter, socorro).
Voltando a origem do meu nome do meio, é claro que família procura colocar nome que tenha significado, não basta ser bonito, tem que ter profundidade. Ou não, vai entender. E vai de época, também, porque os nomes das minhas tias e tios, inclusive da minha mãe, hoje em dia não encontro aqui no Japão. E se encontro, é da faixa etária deles. O meu ainda encontro em pessoas mais novas, mas é raro. Inclusive, nas livrarias, tem livros de nomes para seu filho, porque envolve não somente significado ou se é modinha, a quantidade de traços do kanji também conta, literalmente.
Meu nome, se fosse escrito em kanji, seriam dois - kiyo, que pode significar "puro, limpo" e mi que é "bonito". Quase todos os nomes terminados em mi com o kanji que significa "bonito", são para meninas (assim como os terminados em ko, que vem de "kodomo", que é criança). Mas como não sou registrada no Japão, então não dá pra saber qual seria o kanji correto, já que kiyo também pode significar "sagrado" (não é muito comum, depende da região do Japão), mas se for de acordo como meu pai (que na verdade pegou parte do nome dele, já que alguém da família teria que carregar né, pois o do meu irmão mais velho, quem deu o nome japonês dele, foi minha avó paterna) e meu avô materno, meu nome significaria "fruto perfeito", por que mi também tem o kanji de fruta. Mas por ser mulher, ficou o significado de bonito mesmo (se eu fosse registrar meu nome em kanji na prefeitura, no meu zairyu card, não teria problema, aí ficaria registrado, mas o problema é que a documentação do meu avô paterno já é confuso aqui no Japão, tanto que, para renovação do meu visto de permanência, uso todo o lado materno).
Eu agradeço sempre o fato de terem registrado meu nome corretamente, porque na época dos meus pais, tenho parentes diretos que na hora de registrar, o escrivão fez tudo errado e nem adiantava reclamar (por isso que não uso a documentação do lado paterno por causa dos registros que fizeram tudo errado). Problema é na hora de documentação caso for fazer a árvore genealógica para fins de comprovação de descendência, porque o sobrenome não confere por causa de uma letra a mais ou a menos ou grafia errada.
(Isso porque na época que fui fazer meu primeiro passaporte, ainda no Brasil, quase que armei maior barraco na Polícia Federal porque emitiram o passaporte com meu nome errado, o funcionário disse "ah, isso não vai fazer diferença". Como eu estava para ir ao Japão, disse que "faz MUITA diferença, sim. Eu entrego TODOS os documentos com o nome certinho, soletro e me entrega o passaporte com meu nome errado???" Demorou o dia todo, mas ao menos meu passaporte saiu com o nome certo.)
Uma curiosidade - desde criança, eu colecionava o encarte infanto-juvenil "Folhinha de São Paulo" onde tinha uma coluna sobre "A Origem do Seu Nome", em que publicavam nomes aleatórios com a origem e seu significado. Era muito bom, porque a gente nem imaginava o real significado, a origem (latina, grega, germânica, etc) e suas variantes. Quem é da minha faixa etária e de São Paulo, vai entender.

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