Thursday, July 06, 2006

A Perda da Inocência

Trabalho em um escritório em que costumamos ouvir de tudo um pouco, mas o que muito ouço é de pessoas que falam de problemas, problemas, problemas. O problema mais constante é de que "minha mulher ficou grávida e teve que parar de trabalhar". O problema fica mais embaixo, quando a gente descobre a idade do casal - dezoito, dezenove anos. Isso quando na hora que faço análise dos pedidos dos produtos que oferecemos, os adquirantes são casais com idades de dezoito, dezenove anos...
Fico me perguntando: onde é que esses jovens estão com a cabeça, casando-se tão cedo demais? Tá, antes que me joguem pedras, me chamem de quadrada e me internem num convento, explico melhor: certo que no tempo dos meus avós, ter vinte e poucos anos e neca de pensar em casar, alguma coisa estava errada. Mas com o tempo, casar com idade entre quinze a vinte anos ( considerado menor de idade e só poderia contrair matrimônio desde que, ou se emancipasse ou autorização dos pais ) tinha um motivo: um novo descendente viria pra aumentar a árvore genealógica. Em outras palavras, gravidez precoce.
O tempo passa, a mentalidade muda, acesso às informações parecem que surtem um pouco de resultado. Daí chegou 1990 e iniciou-se a ida e vinda de brasileiros para as terras nipônicas, fazendo o caminho inverso de seus antepassados. Tudo por causa de um governante que da noite pro dia deixou todo mundo endividado.
Foi um tal de casamento arranjado, casamento por contrato... Geralmente pessoas que antes faziam piadas com a nossa etnia, de uma hora pra outra, resolvem se redimir de tudo e dizer "eu te amo" pra quatro ventos, vai entender. Mas o ponto pra essas pessoas ( perdoem-me aquelas que REALMENTE amam seu próximo ) era o vil metal. A "famosa" lenda que oriental é todo rico. Ah, se fossemos ricos, não estaríamos nos matando aqui.
Resultado desses casamentos mal-amados: visto pronto, chegando em outra terra, cada um pro seu canto. E só liga pra pedir documento pra renovar o visto. E onde está o amor nessas horas? E aquela promessa que faz ao sacerdote? Ops, esqueci, em casamento por contrato, é só assinar e acabou! Depois, quando um deles ou ambos conseguem uma alma gêmea que possa suprir o vazio deixado por essa farsa, a confusão fica pior ainda - acusações de bigamia, traição e outros adjetivos mais.
Pior ainda quando se trata de jovens que mal saíram do colegial, mal saíram da puberdade e resolvem juntar os trapinhos. De forma legal, papel e tudo o mais. Fico me perguntando onde é que eles estão com a cabeça? Dezoito anos, eu ainda estava terminando o Magistério, iniciando a faculdade e nem pensar em compromisso sério, pois quem queria caía fora, se é que me entendem. Tudo bem, dezoito anos atrás, nossa adolescência se resumia em sair com os amigos, paquerar ( diga-se, achar linda e maravilhosa a pessoa que passava a um quilômetro da gente ), ouvir rock brasileiro e o que chamam de hoje de "rock/pop dos anos 80", pensar no vestibular, pensar em como ganhar uns trocados sem fazer muita força. Talvez muito diferente dos jovens de hoje. Baladas? A gente se resumia em ir em uma pizzaria na sexta, clube no sábado e sorvete no domingo (pra curar a ressaca da madrugada passada em claro). E muita ida as locadoras, pois quando chovia, ninguém pensava em sair da toca.
Hoje vejo muitos jovens de dezoito, dezenove anos, com a inocência perdida muito mais cedo que se imaginava. Se bem que já começa bem antes. Imaginem crianças em idade escolar fora da escola, imaginem adolescentes já indo pro reformatório no meio do brotar das espinhas e outras manifestações hormonais, imaginem meninas deixando de brincar de boneca para ter uma "boneca de verdade". Alguém disse: "mas isso é o Brasil", poderia ser, mas a verdade são os filhos de nossos patrícios que moram e trabalham aqui. Que na sede de obter fortuna mais rápida, sacrificam tudo em prol do dinheiro fácil ( que não está tão fácil assim ). Desde um casamento desmoronado até abandono dos filhos. Não que TODO mundo seja assim, claro que existem bons e ótimos exemplos de famílias que põem os filhos acima de tudo, dando educação e apoio, mas a grande maioria fica a desejar.
E o que acontece? Filhos largados em casa, sem estudar, sem fazer nada. E pra delinqüência é um pulo. Cansei de abrir os jornais da comunidade e ver "brasileiro pega tantos anos de prisão por furto", "adolescente brasileiro é detido por roubo" e assim vai. Onde viemos parar? No Brasil, descendente que aprontasse e muito, além de deserdado da família, cometer suícidio era pouco. A gente que era tido como "certinho" e que "não aprontava nada", no Brasil ainda continua válido. Mas aqui... Nessas horas a gente que paga os impostos em dia, nunca fez nada de errado, paga é o pato! Sabe como a sociedade aqui é - quando um apronta, todos são iguais. Não é bem por aí, não...
Na verdade fico - ao mesmo tempo - com pena e com raiva desses pais que não souberam criar direito os filhos. Pena porque tem pai que se esforça, raiva porque tem pai que é negligente.
Será que se eu tivesse hoje dezoito anos estaria aqui com uma barriga e com uma pessoa que não gosto mas só casei por causa da maternidade forçada ou queimando os neurônios pra ingressar numa Universidade?
Se tiver os pais que tenho, a segunda opção seria mais certa. Só que estaria ouvindo Beatles ainda.

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