Saturday, May 29, 2010

Muito Antes do "Caminho das Indias"

Ou: Meus vizinhos são O terror - Parte 2

Quem compartilhou as dores, já passou por isso, e, principalmente, morreu de rir da primeira parte sobre os vizinhos que eu possuia (ou possuo, tanto faz), agora vem a segunda parte...

Quando os meus vizinhos (que poderiam ter potencial pra fazer uma sex-tape caseira) mudaram-se, por alguns meses o apartamento vizinho ficou vazio. Tinha o do outro lado, mas os vizinhos mais ficavam fora do que no apartamento a ponto de acharmos que não tinha morador lá. Só sabíamos da existência deles aos finais de semana, quando da parede da nossa sala (onde ficam a tevê e o nosso computador) ouvíamos os roncos dos moradores. Menos mal.

Um belo dia (não me perguntem quando foi, mas eu sei que faz um bom par de anos atrás), soubemos de novos moradores no mesmo apartamento vizinho. Como soubemos? Geralmente, a imobiliária do prédio onde moramos, costuma colocar um adesivo lacrando a caixa de correspondência. Quando não tem mais o lacre e a gente vê a luz da janela acesa (esse tal apartamento, é o da ponta, que tem uma janelinha lateral. No nosso, dependemos da varanda mesmo), sinal de morador novo. Ou problemas a vista, depende.

Sabe aquela história de que "os primeiros dias são aqueeeeeeela maravilha"? E era. Nem ouvíamos ruidos de nada, dormíamos (aham) na maior tranquilidade. Mas como alegria de pobre dura pouco, logo na segunda semana, o pessoal achou que a casa ia cair. Literalmente.

Os vizinhos que tivemos, era uma família hindu. Nada contra, claro, mas o que matava o pessoal de raiva, principalmente quem morava no segundo andar, como eu e namorido kinguio, era que toda manhã o pirralho... ops, o filho desta família, eu acho que deveria ter na época uns seis anos, corria em disparada no corredor do prédio. E gritando às seis da matina. E depois namorido reclamava comigo que meu despertador (o Norakuro) acordava o prédio todo, exceto a gente.

Durante a semana, ainda vai lá, o pessoal tinha que acordar cedo pro trabalho mesmo, mas o ruim era quando era aos sábados e domingos, geralmente os dias que 98% dos moradores folgavam e queriam dormir mais tarde. Digo assim porque naquela época eu tinha que trabalhar aos domingos. Mas eu não ficava correndo pra lá e prá cá nem quando eu tinha a idade desse menino. Num dias destes eu falei pro namorido: "Um dia menos dia, isso vai acabar em choradeira..." E nada dos pais terem simancol pra isso.

Pois bem: uma manhã, em que estávamos nos aprontando pra irmos pro trabalho, aquela mesma "batabatabatabata" no corredor pela manhã e aquela gritaria. E de repente um "tonc" e um berreiro. E não demorou dois minutos para escutarmos aquela discussão calorosa no corredor e pior: na frente do nosso apartamento. O pai do menino falando em inglês macarrônico pro morador do outro apartamento, um salaryman japonês, jovem ainda, pedindo desculpas e baixando a cabeça toda hora. Ah, esqueci de dizer: como as portas daqui abrem de dentro para fora (para facilitar na hora de sair correndo em caso de terremotos, sacudidas e meliantes), quando o rapaz abriu a porta, certamente o menino estava voltando. E o resto imaginem o que aconteceu.

E tudo isso me acontece na hora da gente ir pro trabalho. Pedimos licença pra sairmos de casa e o pai em altos berros, pelo que entendi (do pouco que lembro das minhas aulas na Cultura Inglesa), estava pondo a culpa no rapaz porque não olha pra onde abre a porta. Não gosto de me meter no meio, mas pra ver se colocava uma pedra em tudo isso, soltei o verbo em inglês mesmo pro pai do menino que quem tem culpa também era o pai, porque ao invés de falar pro filho que correr é perigoso, além do mais estava atrapalhando quem queria dormir e tudo o mais. E antes que ele abrisse a boca, falei que, se não parassem a discussão agora, todo mundo ia atrasar pro trabalho porque já ia chamar a polícia, cujo koban fica a duzentos metros de casa.

Cada um acabou indo pro seu canto e o menino pelo menos parou de acordar todo mundo. O coitado do rapaz, no dia seguinte, perguntou ao namorido como é que eu sabia tão bem inglês, essas coisas e agradeceu. Só que, coitado mesmo, ele acabou mudando-se no mês seguinte, por causa do trabalho.

Quem pensou que depois deste incidente, a coisa parou por aqui, enganaram-se. Sabemos que criança nunca pára quieta, mas confesso que, se eu tivesse um destes, eu devolvia alegando defeito de fabricação. O menino era tão hiperativo que, se o prédio não desabasse, então nem terremoto abalaria. Uma vez eu pensei que ele fosse derrubar a parede que divide os apartamentos, de tanto que ele chutava.

Acho que, o fim da picada mesmo, que levou a família a ser convidada a mudar de casa, foi uma noite em que voltamos de um jantar (bem, yakiniku, onde sempre costumávamos ir) e nosso vizinho de andar chegou para nós, desesperado. E uma música pra lá de alta. Pelo que entendi (estava com sono e, bem, de ressaca porque tomei cerveja naquela noite), nosso vizinho tinha tentado chamar a gente indo no nosso apartamento para irmos chamar a polícia.

Explicando:

- O vizinho estava fazendo uma festa de arromba com os compatriotas;

- A música e a conversa estavam em níveis pra lá de toleráveis;

- Os sapatos dos convivas ocupando metade do corredor do segundo andar;

- Detalhe: era pra lá da uma da manhã, e metade da vizinhança já estava indo pro koban registrar queixa por desordem na paz noturna. Sim, aqui, lei do silêncio, depois das dez da noite.

Resultado: a polícia acabou indo no prédio, foi falar com o distinto morador que, sei lá se entendeu ou fez pouco caso, mas sei que na semana seguinte tudo voltou ao silêncio. Sim, a família acabou mudando por ordem da imobiliária - teve mais gente que acabou indo registrar reclamação lá.

Eu sei que muita gente vai falar que seria preconceito, coisa similar e tals, mas em qualquer lugar do mundo, quem mora em apartamento, casa "germinada" (tá bom, geminada, mas sou do interior e a gente costuma falar assim), já tem que se preparar que vizinho barraqueiro existe e estou tendo essa comprovação desde que mudamos pra Yokohama.

Como até hoje ninguém nunca reclamou da gente, apesar de eu e namorido, quem olhar pensam que somos um casal japonês até abrir a boca, explico porquê:

- Sempre fazemos o máximo possível pra não fazer barulho dentro de casa. Tá, teve algumas noites que voltei dos nomikai da firrrrrrrrma e quase derrubo o porta guarda chuvas que tenho na entrada e algumas vezes que errei no timer da máquina de lavar pra funcionar automaticamente antes de eu acordar, e a dita começou a funcionar as cinco da matina...

- Certo que a tevê em casa funciona só quando eu acordo e antes de dormir. Dia de minha folga nem fico em casa. Ver programação perdida (leia-se os doramas), eu torrento só que levo algum tempo pra assistir depois. Mesmo quando assisto algo via computador, uso fone de ouvidos mesmo.

- Fazemos o possível para jogar o lixo no dia certo. Confesso: teve um ano que esqueci de jogar o lixo queimável no dia do meu bairro e tivemos que ir ao outro lado da cidade para jogar, pois o calendário varia de bairro pra bairro. Detalhe: era final de ano...

- Não fazemos reuniões de tapaué, jantares, chá das cinco e similares em casa, e quando acontece é de vez em nunca. Antes que me chamem de antissocial (será que assim que se escreve na nova ortografia confusa?) ao infinito, explico: nosso apertamento é apertamento mesmo, do tipo: chegou visita, a mesma corre o risco de ficar na varanda. Não estou exagerando.

Nesta semana que passou, estava conversando com um amigo meu que sofre o drama da vizinhança. Um vizinho lesado resolveu usar o aspirador de pó em plena madrugada. E ele quietinho sem falar nada. O dia que, no dia da folga, lá pelas oito da manhã, foi fazer limpeza e a vizinhança começou a bater na parede e no teto por causa da máquina de lavar. E os outros usarem aspirador de pó no meio da madrugada, pode, né? Em breve, neste mesmo sítio, a parte três, que talvez chocará os amantes da ecologia, que vão querer me espancar e usar como adubo orgânico, mas haverão de convir que tudo o que é em excesso...

7 comments:

  1. Conviver com vizinhos é realmente um exercício ótimo de tolerância. NO Japão eu não tinha problemas com isso. No último apato de um lado tinha uma família japa com crianças, mas faziam barulhos apenas em horários adequados, mas do lado era um brasileiro que entulhava tudo na varanda. Meu medo era os bichos que poderia entrar em casa devido aos restos do outros. Não esperei o verão pra descobrir rs. Voltei antes. Aqui no BRasil o vizinho de cima dá festas sempre, o cachorro vive correndo pela casa e sabemos onde ele está. Mas por outro lado, aqui em casa temos dois cachorros, um deles barraqueiro pra caramba, então acho que somos os urussais rsss

    Kisu!

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  2. Criança sem limites é complicado né? Agora fiquei abismada ao ler que ele chutava a parede e a cena dele batendo na porta parece coisa de filme. O bom, pelo que tenho lido nos seus posts, é que aí no Japão as coisas funcionam e vc pode reclamar na imobiliária ou no polícia e eles resolvem o problema. Aqui as coisas são mais difíceis!

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  3. Aqui passamos há um tempo atrás por uma situação muito parecida. Só que, infelizmente, eram brasileiros.
    O comportamento não diferia mto destes ex-vizinhos seus.
    Só que, ao serem convidados a se retirarem do prédio, fizeram discurso que era preconceito, ameaçaram chamar consulado e embaixada, etc.
    Deu polícia, mas como os outros vizinhos brasileiros confirmaram que realmente eles eram um incômodo e que não houve ijime...
    Só que arquitetaram vingancinhas: jogaram pedras em vidros, traziam toda a sorte de lixo para o prédio e um dia todas as caixas do correio estavam depredadas... só parou qdo o tal casal foi convidado a dormir uns tempos na delegacia local...

    coisa triste!

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  4. Meu, nem foi comigo, mas que delícia saber que os bagunceiros foram convidados a se retirar pela imobiliária! Se fosse eu, teria ficando plantado na porta do prédio de braços cruzados, com um sorriso de orelha a orelha assistindo atentamente à partida, caladinho!

    Me chamem de cruel, mas ADORO ver gente encrenqueira se dando mal, tipo... ADORO mesmo! Mais do que chocolate, hahahaha!

    E eu duvido que qualquer pessoa com bom senso achasse que foi preconceito seu. Muito provavelmente o cara era um safado que se aproveitava do fato de ser indiano na intenção de se fazer de "vítima", de "coitadinho" se alguém fosse reclamar com ele.

    Essa mania de "politicamente correto" hoje em dia já extrapolou os limites e serve mais para dar margem a folgados e melindrosos do que para proteger supostas "minorias vitimadas" mesmo (aliás, para essas que realmente precisam geralmente não funciona).

    Ainda bem que as coisas por aí funcionaram!

    Abraço!

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  5. Bah, até eu mudar pra Yokohama, eu pensava que "espero que comigo nunca aconteça", pois até então, como disse, nunca tive problemas com vizinhos e vice-versa. Agora, no atual apertamento, resolveram descontar tudo. E os unicos brasileiros somos nós.
    Quanto a festa do seu vizinho... E nem te chama pra um salgadinho? Aí eu iria reclamar mesmo!
    Nao creio que sua familia seja urusai, pois se ninguem reclamou de voces nem com o Cine Prive ao vivo, entao...
    Beijosecuida!

    Desabafando, sobre o fato de ter batido a cara na porta, aqui acontece mesmo, pois como disse: a maioria das casas abre de dentro pra fora para facilitar na hora de escapar em caso de terremoto. Daí pra alguem abrir a porta na pressa sem ver quem esta vindo do outro lado é batata acontecer isso mesmo. Sim, realmente, aqui funciona quando a gente vai falar que vai chamar a polícia. Ou quase. Mas é só em caso extremo tal como aconteceu com o dito vizinho.
    Eu sei como é difícil as coisas no Brasil: meus irmaos moram num apartamento e vez ou outra têm que aguentar pagodeira do morador do mesmo andar que eles...

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  6. Alexandre, eu até hoje nao sei se foi sorte nossa ou porque nós que escolhemos muito, mas desde que moramos em Kanagawa não temos vizinhos brasileiros. Certo que em Minamiashigara era meio mato, mas fomos morar num prédio de quatro apartamentos, sendo três da mesma familia da oyasan...
    Mesmo em Yokohama, onde me escondo, brasileiro é raro encontrar e olha que tem a Bridgestone que é grande hein!
    Mas no seu caso, ô pessoal sem noção, hein? Deveriam ter falado "e se seu vizinho estivesse fazendo a mesma coisa, você iria gostar?". Foi o argumento que metade do predio onde moramos falamos para essa familia hindu no dia da festança fora de hora.
    Retaliação não tivemos, ainda bem.
    Realmente, existem pessoas sem noção que acham que pensam que tem o rei na barriga independente de onde veio e onde está...
    Felizmente seu caso foi resolvido...

    Felipe, existem casos que funcionam mesmo, mas existem casos que nem mostrando o que poderá acontecer resolvem. Só se for ao extremo, como contarei em breve.
    Não, quando eles se mudaram, eu não estive pra ver, pois fizeram durante a semana e estavamos todos no trabalho. Não sei como aquela familia não fizeram algo conosco depois do dia da portada, como fazer o pirralho, ops, o menino riscar nosso carro, jogar o lixo na nossa varanda, mexer em nossas correspondências...
    Namorido acha que eles ficaram é com medo de mim. Nossa, será que eu tenho cara de brava assim? hahaha
    Atualmente, problemas com o vizinho aos lados nem do andar de baixo nao tenho, mas com uma... fica pro proximo capitulo rs

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  7. Chorei de dar risada ao imaginar o japonês abrindo a porta e o menino dando de cara com ela...rsrs...já vou dizendo que não sou ruim a este ponto, mas de certa forma ele mereceu um pouco...rs

    Realmente vizinho barulhento é uma coisa séria. Quando não é o de cima, é o de baixo...Parece que só a gente pensa no bem estar dos outros.

    Na parte I do seu post comenteu sobre minha vizinha de cima, mas agora o problema voltou com a vizinha de baixo. Ela estava viajando mas agora retornou. Tudo bem que é uma senhora bem simpática, mas o problema é que ela é meio surda e ouve TV no último volume logo às 6 da manhã...

    O problemas das casas do JP é que muitas casas tem as paredes extremamente finas e por isso o barulho se propaga ainda mais. Sobre o lixo, nós também tínhamos o maior cuidado para jogar no dia certo. No começo quando não estávamos acostumados e perdíamos o dia certo, deixávamos dentro de casa mesmo até a outra semana...

    Não custa fazer a coisa certa, não é?

    Bjo,
    Carlos

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