Saturday, August 14, 2010

Quando se aprende da forma mais drástica possível

Na postagem anterior, falei da cidade perdida no meio do arrozal chamada Hikami (atualmente Tamba). Apesar da cidade ser minúscula, cheia de montanhas, arrozais e construções antigas junto com as modernas, cujo trem passa de meia em meia hora pra ir pra "cidade grande", quase tudo fechava por volta das nove da noite, ainda guardo boas lembranças de lá. Tenho algumas ruins, tal como a chuva que despencou de balde na cidade e inundou o apertamento do - então na época - futuro namorido. Mas também tenho algumas engraçadas, o que vou compartilhar com vocês, afinal, todo mundo comete gafes.

Não faziam três meses que estava morando em Hikami, cuja rotina era trabalho-casa devido horário de trabalho durante a semana, e como quase tudo fechava por volta das nove da noite, nem dava para aproveitar, o que restava voltar pra casa, descansar e assistir aos doramas e programas de variedades (lembrando que, em 1998, internet ainda era sonho distante, quanto mais TV a cabo, daí o motivo porque eu assistir mais doramas japoneses) e estudar um pouco - lembrando que, onde eu morava, se tivesse vinte brasileiros era muito, e tinha que me virar para tudo. Do tipo: o pessoal só dava as dicas de onde ficava tal lugar, mas o resto...

Trocando em miúdos, eu teria que me virar nos 30. Ou, melhor "se vira porque você não é quadrado".

Pelo menos, ao fazer compras no supermercado, não fiz as "clássicas confusões" de comprar sal pensando que era açúcar e vice versa; iogurte ao invés de leite; pasta de polimento ao invés de pasta dental e por aí vai. O que talvez eu possa ter feito, mas não me lembro pois faz muito tempo mesmo, era ter comprado amaciante pensando ser sabão líquido para roupas (daí o motivo porque não fazia espuma e minha roupa ficava cheirando a amaciante...).

Apesar de ter estudado cerca de três anos de língua japonesa em um clube nos tempos de faculdade, o meu fraco - até hoje - é conversação. Entender, até que dá pro gasto - de tanto assistir programas de variedades e novelas japonesas, mas na hora de falar, eu fico pensando muito em falar de forma correta, sabem? E naquela época, em 1998, eu só tinha as noções básicas mesmo, o que não me impediu de ter comprado alguns dicionários e alguns livros de "como aprender a língua japonesa" em uma de minhas idas para Osaka.

O que mais me motivou a pegar mais firme nos estudos, foi uma noite em que conta aí três meninas, uma casa de lámen e um menu inteirinho em kanji.

Uma bela noite, depois do trabalho, sabendo que no dia seguinte era sábado de folga, eu e mais duas meninas que trabalhavam juntas e moravam vizinhas do apartamento onde eu morava, resolvemos ir jantar lamen. Sim, o autêntico lámen, feito na hora, diferente dos famosos instantâneos quebra-galho de quem mora sozinho e bate a preguiça de cozinhar. Fomos no Ohsho (王将), que era uma rede de lamen que tem todo o Japão. Lugar pequeno, mas lotado por ser sexta-feira. E fomos as três jantar lamen.

Como eu disse, eu era recém chegada no arquipélago, tentando me virar na língua local. E era a primeira vez que eu ia num estabelecimento destes. Aí pra cometer um monte de gafes, era um pulo só, mas uma que eu fiz valeu por dez delas.

O cardápio era inteirinho escrito em kanji o que me dificultou na hora de saber que raios de ingredientes esses lamens tinham. Poderia até ter de sapo que sei lá, acho que encararia. O que poderia me salvar eram as fotos que continham. Nem precisam adivinhar como foi, né?

Vi a foto de um lamen que me pareceu saboroso. Molho vermelho. Lamen de tomate? Bem, pode ter de tudo, certo? A hora que eu pedi o dito produto, o atendente me olhou com uma cara que não entendi, mas em alguns pares de minutos eis o saboroso, suculento e vermelhíssimo lamen de... tomate. Só que o aroma do caldo não parecia ser de tomate, mas vai saber o quê colocaram a mais, né?

Na hora em que fui comer a primeira bocada do macarrão... Senti algo queimar do esôfago ao estômago, meus lábios começaram a formigar, minha língua parecendo pegar fogo! Imediatamente tomei pelo menos três copos de água cuja jarra estava a disposição na mesa. As duas meninas que estavam comigo estavam assustadas, pois - segundo elas - imeditamente fiquei vermelha feito pimentão. E mesmo assim continuei a tentar comer o resto da iguaria, pois era desperdício não comer e deixar quase tudo. Ainda mais que eu estava na época em que gastar pra comer fora era artigo de luxo.

Depois de uma hora de martírio pra comer tudo aquilo, duas jarras de água e uma garrafa de cerveja (sim, eu apelei pra uma garrafa de um litro e não uma lata pequena), voltamos para casa. Eu, ainda com a língua anestesiada com aquele lamen de que tinha côr de tomate, consistência de tomate, mas necas de gosto de tomate. E completando, estava meio atordoada com a cerveja.

No dia seguinte, contando o episódio para minha colega de trabalho e apartamento, eis que ela disse-me que o lamen que comi não era de tomate, mas de... kimchi e togarashi!!! Pra quem não sabe, kimuchi é da culinária coreana, um molho vermelho, parecendo tomate, mas um pouco mais claro. Mas apimentado demais - pelo menos pra mim. E togarashi é pimenta vermelha. Concentrada. Imagine tudo isso num lamen.

1) As duas meninas que estavam comigo também não sabiam quase nada de japonês, por isso que elas não puderam me alertar do pedido que eu estava fazendo;

2) O cardápio era inteirinho em japonês, em kanji, nem uma tradução em furigana o que me ajudava pelo menos em 20% da situação;

3) Foi a partir daí que passei a estudar ainda mais a língua japonesa inclusive nos intervalos do almoço, comprar alguns mangás e tentar ler através do auxílio dicionário, assistir programas de variedades japoneses e também comecei a ouvir mais j-pop;

4) Mesmo depois deste traumático episódio (desnecessário dizer o efeito colateral do dia seguinte à tragédia, quem come comida muito apimentada sabe muito bem o que acontece), fomos novamente a mesma casa de lamen e a partir daí pedia qualquer um do cardápio, exceto o de kimchi.

Quem pensar "ah, aposto que depois que mudou pra Kanagawa, nunca mais comeu naquela casa de lamen". Muito pelo contrário: perto de onde eu trabalho, tem um Ohsho o qual vez ou outra vou para comer lamen, ou gyouza, pastéis chineses que são a especialidade da casa.

Essa rede de lamen você ainda recomenda, Dona Piggy? Claro. Apesar de algumas lojas da rede parecerem construções antigas, ou muito agitadas ou cheirando a caldo de lamen, o lugar em si é ideal pra quem quiser comer um lamen ou gyouza ou até chahan (pronúncia-se "tcharrã", um arroz temperado contendo ovo mexido, legumes e molho). Já comi vários chahan mas o da rede Ohsho eu achei o mais suculento e o tempero bem agradável.

Para quem quiser saber mais, entre no site oficial de uma das maiores redes de lamen que eu conheci (apesar que devem existir dezenas, mas a mais conhecida é esta), cuja matriz vem de Kyoto: http://www.ohsho.co.jp/, e veja qual o estabelecimento mais próximo da sua casa...

Fotos: via seo gugol pois na época a autora lesada não tinha câmera fotográfica para registrar a tragicomédia...

14 comments:

  1. É verdade,deve ter vividos maus momentos não inicio não?

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  2. kkkkk....que engraçado! Bom, mas pelo menos hoje vc não paga esses micos né? Imagino que esse lamen seja diferente desses que vemos aqui pelo Brasil não?

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  3. hahahahahahahaha
    rachei.

    mas fala quem nunca fez um k-gada dessas que atire a primeira pimenta.

    eu adoro o gyoza no osho. hj em dia é tudo tão facilitado que no osho daqui tem o cardápio traduzido em português, inglês.

    pela foto parece mesmo gostoso...
    se fosse um bom lamen de tomate...hummmm
    será que existe?
    bjs bom fds

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  4. Porque Ms. Piggy Sakura?

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  5. Postei o comentario errado.Vejo seu blog algumas vezes e mas estou comentando pela 1° vez.O que é Ms. Piggy Sakura?

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  6. Hahaha, vermelho é sempre traiçoeiro quando se trata de comida XD! Aqui no Brasil mesmo, tinha uma época em que as pessoas na lanchonete viviam confundindo a bisnaga de catchup com a de pimenta! Até que os comerciantes começaram a colocar etiquetinhas identificando (minha língua agradece, kkkk).

    Mesmo assim, eu ainda tenho mó curiosidade de experimentar kimchi. Quem eu conheço que já experimentou disse que é bom (na dose certa, claro XD). Já esse "togarashi" eu nunca tinha ouvido falar.

    Aburaso!

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  7. Hahahahahaha, eu ri muito, mas fiquei com pena de vc também!!!

    Bjinhos!!

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  8. Só de ler já me deu vontade de cuspir labaredas igual a um Pokémon Charizard.

    Por essas e outras que eu estudo nihongo... Vamos ver se consigo em breve fazer o Noryoku Shiken. Pretendo ir ao Japão, mas antes quero ter um nível razoável de conversação, que é meio difícil pelo local onde moro, mas perfeitamente possível.

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  9. Confesso que sou meio aversa à lamen, comia mto a contragosto, mas aprendi a gostar do lamen do Japão. Não que seja meu prato favorito, mas fiquei um pouco exigente. Não é qualquer lamen que eu comia tb e não aguento comer tudo... esse de kimchi ai sei qualé rs... mas a melhor gafe de todas foi uma colega minha confugir água com saquê.... aqueles galões de 5l sabe? rsss

    Kisu!

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  10. Obrigada pessoal por compartilharem essa gafe que cometi. Lembrando que, em 1998, ainda mais na vila onde morava, NAO tinha estabelecimentos com menu com tradução em inglês. Até mesmo um McDonald's o cardápio era inteirinho em japones. Aí pra cometer essas gafes era um pulo né?

    Liz, no início eu tinha medo de sair de casa sozinha e não encontrar o caminho de volta. Hoje só me perco dirigindo em Toquio, mas aí até quem é da metropole sem GPS nao dá, não dá, não daaaaaa!
    Beijo e obrigada pela visita!!!

    Desabafando, hoje eu pergunto o que vem quando estou na dúvida. Melhor do que arriscar e confundir pimenta vermelha com tomate né? Quanto ao lamen, eu nao sei como está hoje no Brasil, mas o feito nesses estabelecimentos é o melhor!
    Beijao!

    Alexandre, dez entre dez estrangeiros ou até mesmos os proprios japoneses já fizeram pelo menos uma gafe na vida.
    O Gyoza no Ohsho é muito bom mesmo, recomendo sem medo. Onde eu vou de vez em quando (leia-se no maximo quatro vezes num ano....) o cardapio é no máximo em inglês, mas ajuda mesmo! Em 1998, na vila no meio do arrozal, nem estrangeiro tinha direito, imagine como era! Hoje está quase tudo mais conveniente rs
    Pois é, a foto no menu parecia ser de tomate... rs
    Beijao e bom resto de final de semana!

    Anomino(a): obrigada pela visita. O motivo de Ms. Piggy Sakura, deve ter um post perdido que explico o porquê!

    Felipe, "togarashi" é a pimenta dedo de moça. Mas a pimenta mais ardida que existe no mercado, até onde sei é a Habanero!
    Abraços!

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  11. Georgia, isso no que acontece quando não se pergunta o quê vai de ingredientes. Só que eu, lesada e nem sabia direito falar, deu no que deu. Depois dessa, hoje quase não tenho problemas em saber o quê estou pedindo rs
    Beijao!

    MP Kouhaku, apesar de hoje muitos cardápios serem bilingues, os mais tradicionais tem que decifrar o que é que.
    Este ano tambem penso em fazer novamente a prova! Boa sorte! :)

    Bah, ultimamente, eu, pra comer lamen, só se eu estiver com muita fome mesmo. Acaba virando minha refeição principal. Agora, confundirem garrafão de 5l de saquê, achando que era agua... bem, se bem que era água, sim - a água que passarinho não bebe hahahaha
    Beijao!

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  12. Deve ter sido difícil comer tudo aquilo...rs...Além de desperdiçar dinheiro, com certeza o cozinheiro iria olhar feio se deixasse sobrar muito lamen...rs...

    Você foi corajosa mesmo...não sei se aguentaria uma porção grande super apimentada....arde só de pensar...rs...

    Aqui em SP tem duas casas boas de lamen: o Aska e o Lamen Kazu. Por incrível que pareça, eu não experimentei lamen no Japão....era tanta coisa para comer e na época eu não gostava muito de "macarrão com caldo". Tinha que ser com molho de tomate...rs...Então não sei dizer se o daqui é parecido ou não com o do JP.

    Mas depois que voltei fui até o Lamen Kazu lá na Liberdade e adorei o prato...rs...agora fiquei viciado. Semore que posso dou uma parada neles. O Aska tb é bom, mas o sabor é mais suave.

    Bjo,
    Carlos

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  13. hahaha,
    me lembrei da primeira vez que eu fui a Paris não sabia o que era poivre. Pedi e descobri que era pimenta. Comi um bife ardidíssimo.
    Na China quando queria comer verdura escolhia pratos com o kanji ao 青。Sempre vinha verdura. Realmente é difícil comer sem saber ler!
    Voltei e vim te encher já. rsrs

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  14. Carlos (tabeteimasu): em 1998, recem chegada, sem noção e num lugar onde tudo (inclusive Mos Burger, McDonald's e outros lugares conhecidos) não tinha nada em roma-ji como hoje a maioria tem, a sucessão de gafes seria inevitável.
    Depois deste episódio, ainda continuo comendo lamen. Não de karakuchi (ardido), mas os ditos normais ahahah

    Elisa, para a gente ver que não é só aqui a gente comete enganos. Ainda bem que no seu caso era pimenta comum, pois no meu era aquele togarashi (ou dedo de moça), minha nossa!
    Acho que por isso eu evito de colocar tanta pimenta na comida.
    Seja bem vinda de volta e pode vir me encher o quanto quiser! hahahaha

    Beijao a todos!

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