[Beatles e Japão] O impacto da Beatlemania no território japonês


*Nota da autora: vou dar o meu parecer sobre o fenômeno baseado em muitas reportagens em japonês que andei coletando nas livrarias, bibliotecas e sites sobre como a Beatlemania chegou no Japão mesmo um pouco tarde perante o resto do mundo, porque fora isso, muita gente despreza a passagem da banda no Nippon Budokan entre junho e julho de 1966, pra não dizer em poucas palavras "estressante, estafante e mal-feito".

Eu só fui descobrir o quanto o j-pop deve muito ao fenômeno da Beatlemania (meio que tardia) quando comecei a ler algumas revistas publicadas no Japão nos anos 70 (a Heibon era uma delas), quando os rumores de uma possível reunião dos Beatles estavam muito fortes. Mas aprofundar de vez mesmo foi quando vim parar aqui e, uma das coisas que fui procurar, eram livros e revistas sobre o quarteto de Liverpool, mesmo eu ainda não ser nada fluente, mas a gente acaba aprendendo.

Embora alguns singles tivessem aparecido no arquipélago mais ou menos na época do lançamento, saibam que os títulos eram "traduzidos", o que colecionador quebrava a cabeça para entender. Mas, muitos japoneses foram conhecer de vez os Beatles em 1965, graças a uma edição da revista "Music Life", onde a jornalista Rumiko Hoshika foi para Londres e conseguiu uma entrevista com a banda. 

Daí por diante, muitos universitários que tocavam jazz em kissaten (cafés típicos no Japão) para ganhar uns trocados, passaram a mudar o ritmo, visual e com isso surgiram muitas bandas que duraram anos ou não passaram de one-hit wonder, mas foi o suficiente para mudar o rumo da música japonesa, que embora tivessem os pioneiros como Takeshi Takeuchi e Yuzo Kayama, eles eram mais influenciados pelo rockabilly (no caso de Takeuchi) e surf music (no caso de Kayama). Claro que os Group Sounds (gênero musical que surgiu no meio dos anos 60 e durou até o início dos anos 70) representavam uma "ameaça a moral e bons costumes", mas mudaram completamente o gênero musical que na época era o kayoukyoku, que era pop tradicionalmente japonês inspirado em outros gêneros musicais do ocidente, como jazz, blues e até o rock-and-roll.

Jackie Yoshikawa and The Blue Comets

The Spiders

The Tempters

The Tigers

No que os Beatles entram nessa história toda?

Os primeiros singles que entraram no país vieram pela gravadora Odeon-Toshiba, que era subsidiária da EMI no Japão, e o primeiro a chegar foi em 1964, com "I Want to Hold Your Hand"/"This Boy". Mas os álbuns eram da versão norte-americana, só seguiram com a discografia inglesa a partir de "Revolver".

O primeiro single dos Beatles a chegar no Japão pela Odeon-Toshiba - "I Want to Hold Your Hand"/"This Boy", que foram traduzidos como "Dakishimetai" e "Koitsu".

Depois, a reportagem exclusiva de Hoshina para a revista "Music Life" em 1965, foi que a Beatlemania chegou no Japão com um certo atraso, mas o suficiente para que muitos jovens passassem a ouvir e até serem músicos como eles.

Um dos motivos dos Beatles terem ficado reclusos no hotel durante as apresentações no Nippon Budokan, que foi de 30 de junho a 2 de julho de 1966, somando cinco apresentações, é que os ultraconservadores eram contra um grupo ocidental a realizar concertos "em solo sagrado", já que o Nippon Budokan foi construído para as Olimpíadas de 1964, onde foi usado para torneios de judô. Isso como não bastasse a entrevista controversa de John Lennon no início do ano (se bem que, entre os japoneses passou batido, mas é que os ultraconservadores abominavam tudo o que "viesse de fora").



Por conta das ameaças que a banda sofreu dessa facção, a segurança foi reforçada, eles nem davam pra dar uma voltinha no quarteirão (Paul McCartney até tentou, foi até os jardins do Palácio Imperial com o roadie Mal Evans, mas foi intimado a retornar logo pro hotel, nem tanto pelas fãs, mas pelos extrema-direitistas que estariam de plantão), tanto que os ternos foram feitos sob medida, alimentação, presentes e visitas foram feitas tudo dentro do hotel


Os shows foram transmitidos pela NTV, teve uma boa audiência. Além da acústica ser muito boa, quem fez apresentação no Nippon Budokan percebeu que a qualidade do som era excelente, porque o público fica mais apreciando a música e a performance do que ficar gritando até acabar a voz ou não deixar o artista fazer sua apresentação decentemente.


Foi o que os Beatles sentiram quando fizeram as cinco apresentações no Nippon Budokan - embora o lugar estivesse lotado, a platéia estava em sua maioria em silêncio, prestando atenção nas músicas e na performance. Foi aí que eles perceberam que realmente eles conseguiam ouvir um ao outro, tanto que algumas músicas que nunca apresentaram ao vivo em outras turnês, conseguiram fazer no Japão, como "Day Tripper", "Nowhere Man" e "If I Needed Someone".

Tanto que depois, sairam muitos bootlegs (gravações piratas) da apresentação no Budokan, e muita gente considera o concerto com uma qualidade de som excelente, bem como os vídeos de boa qualidade e em cores, coisa muito rara nos anos 60.

Depois que os Beatles fizeram as apresentações no Nippon Budokan, e viram que o negócio era mais lucrativo que eventos esportivos, o local virou ponto para muitos artistas, tanto locais como internacionais. Diz a lenda que, artista que fizer show no Nippon Budokan, zerou na vida, ou seja, sentirá-se muito realizado.

É inegável - embora a música pop japonesa já tivesse alguns sinais de influência "de fora" como jazz e blues, rock-and-roll, folk e rockabilly, foram os Beatles que acabaram por influenciar muito mais, tanto que muitas músicas do movimento Group Sounds continuam nas rádios e programas musicais até hoje.

Se nas primeiras apresentações tiveram as aberturas de artistas locais conhecidos como Isao Bito, Yuya Uchida (que depois tornou-se amigo de John Lennon) e Jackie Yoshikawa and The Blue Comets (banda que posteriormente ficaria conhecida como o segundo artista japonês a se apresentar no famoso "Ed Sullivan Show"), no Hilton Hotel (que depois tornou-se Capitol Tokyu Hotel), os Beatles receberam, além da jornalista Rumiko Hoshina e do fotógrafo Koh Hasebe (que trabalhava na época para a revista "Music Life"), o cantor, compositor e ator Yuzo Kayama.

*Kayama revelou em seu livro autobiográfico que, o motivo de ter conseguido entrar na suíte onde os Beatles estavam hospedados, é que gravadora a que ele pertencia na época era a mesma da banda, então foi através da Odeon-Toshiba que conseguiu esse feito. No dia em que Kayama encontrou com os Beatles, ele tinha acabado de retornar do Hawaii, onde, além de ter lançado o novo single, estava filmando para a série "Wakadaishou".

Uma das cenas que até hoje é homenageada, é a chegada dos Beatles no Aeroporto de Haneda, de madrugada, somente testemunhada pela imprensa, já que o vôo atrasou devido a uma tempestade. Até eles mesmos estranharam a falta de fãs aguardando no aeroporto, cena comum no auge da Beatlemania.



Algumas cenas da apresentação do primeiro dia (que depois foi lançada em DVD somente no Japão depois de quase quarenta anos depois), podem ser conferidas no documentário "Anthology". 

Nota da Autora 2: Que 1966 foi um ano "pesado" para os Beatles, isso não tem como contestar, ainda mais depois da entrevista de Lennon (que nem preciso comentar). Dava para perceber que eles já estavam ficando cansados e não queriam perder a criatividade. O cansaço era evidente na turnê norte-americana de 1965, especialmente no Shea Stadium, que nem eles conseguiam se ouvir direito, poderiam desafinar ou esquecer a letra que estava tudo bem, os fãs queriam era vê-los do que ouvir a música. 

Na turnê mundial de 1966, era evidente que eles já estavam botar um ponto final nisso tudo, mesmo tendo bom público, mas quando perceberam que no Nippon Budokan o pessoal mais ouvia do que gritava, os Beatles viram que a qualidade das apresentações anteriores estavam decaindo, porque eles estavam cantando de qualquer jeito. Na setlist do Nippon Budokan, incluiram música que na época eram difíceis de interpretar ao vivo, como "Nowhere Man", "If I Needed Someone" e "Paperback Writer".

A gota d'água foi o incidente em Manila, que, por falta de comunicação, por pouco a banda não foi desta pra melhor. Encerram a turnê no Candlestick Park em São Francisco no dia 29 de agosto de 1966, sem anúncio nem nada. Simplesmente fizeram o show e pronto, e ninguém sabia que aquele seria o último show ao vivo na carreira da banda.

Já vi livro sobre a turnê japonesa de 1966 resumido em uma palavra - estressante. Mas nem sequer teve o trabalho de procurar saber o motivo que levaram os Beatles a chegarem de madrugada em Haneda (o vôo atrasou devido a uma tempestade que pegaram em Anchorage), terem ficado literalmente reclusos na suite do hotel (a extrema-direita estava ameaçando a banda de morte pelo fato de ser uma banda ocidental a fazer concerto no "solo sagrado" aka Nippon Budokan, e sabem como é, existem aqueles tradicionalistas ferrenhos que até mesmo seus compatriotas os rejeitam), e segurança máxima (por causa do motivo que citei agora há pouco. Já imaginaram se acontecesse algo pior com os Beatles em território japonês? Problema diplomático seria pouco.)

Mas teve um lado positivo para a banda - além de terem mais tempo para explorar novos ritmos, se dedicarem mais no estúdio do que no palco, eles influenciaram muitos artistas e na cultura pop, além dos produtores notarem que, o Nippon Budokan pode ser usado para apresentações musicais e ser mais rentável.

Imagens: Robert Whittaker, Koh Hasebe, Music Life Magazine, Yomiuri Shimbun, NTV.

Comments