Este ano comi muito mais milho do que nos outros anos.
Não que eu não goste de milho, muito pelo contrário - o que tiver comida a base de milho, estou comendo, desde milho cozido com a espiga até bolo, curau, pamonha.
Se perguntarem para mim se eu já tentei fazer algo com milho, sem ser cozido, o máximo que fiz foi bolo de milho (usando milho em grãos congelados), polenta (encontrei de marca italiana na minha loja de importados favorita, o Kaldi) e bolo de fubá (achei fubá quase igual ao do Brasil em mercados japoneses), porque nunca tentei fazer curau e pamonha com o milho cultivado aqui.
Quem tentou, falou para mim que o milho cultivado aqui é muito aguado demais. Nem tentei porque dá trabalho pra caramba.
Daí que um dia comendo milho cozido com manteiga, lembrei de muitos anos atrás, quando eu ainda estava no Brasil, as reuniões que minha família - por lado materno, porque ainda tinha todos os tios vivos - fazia no começo do ano. Um dos meus tios possuía uma plantação de milho (além do feijão, que era sua fonte de renda), e quando tinha colheita nova, chamava todo mundo para... fazer pamonha na casa de uma de minhas tias!!!
Isso mesmo. Minha mãe, que era uma das irmãs que morava longe (porque o restante morava tudo na mesma cidade), já me intimava para pegar o panelão de banho-maria, ralador, tábua de cortar, bacias, tapaué tamanho litro, duas horas de estrada para juntar com as tias e primas (que era maioria pelo lado materno, e ainda a gente tinha mais ou menos a mesma idade) e passar a manhã toda descascando milho, tirar as barbas, ralar, separar as folhas bonitas, passar o milho ralado na peneira, colocar na folha em forma de copo, fechar com a folha e amarrar com o barbante feito da própria folha. Era deixar cozinhar em banho-maria.
Mas o legal nessa história toda era quando as primas se juntavam e começava as conversas típicas da nossa idade (acho que eu tinha uns vinte e poucos e minhas primas entrando nos dezoito), como faculdade, trabalho e zero namorados. Se perguntarem o que meu pai e meus tios faziam, eles traziam o milho, ajudavam a descascar, a ralar e limpar toda a sujeira que a gente fazia hahaha (quando todo mundo se reunia no Ano-Novo, quando meus avós maternos tinham sítio, sobrava para meu pai ajudar a fazer o mochi, sabe aquele modo mais tradicional no Japão? Pois é, alguém tinha que pegar aquele baita batedor de madeira).
Essas reuniões a gente tinha o hábito de fazer todos os anos, mas com o tempo, nem todo ano a safra do milho foi boa, minhas primas mudaram de cidade para estudar e trabalhar, e algumas delas casaram e fizeram nova vida, eu vim parar aqui, e minhas tias já não tinham mais vontade de fazer a "pamonhada", porque faltava gente não somente para ajudar, mas para alegrar o ambiente, ainda mais que juntavam as primas, que a gente só se encontrava quando tinha algum evento (porque eu morava muito longe e não dava pra ir toda semana).
Pode ser que nas lojas de produtos brasileiros que existem muitos aqui, tenha pamonha, mas o gosto não é o mesmo, porque pamonha para mim, sempre foi aquela feita em casa mesmo, juntando a família toda para "mutirão da pamonhada", onde cada uma fazia uma parte (no caso de eu e minhas primas era fazer os copinhos de palha só pra não ter que ficar ralando milho), a gente ficava esperando ficar pronto para comer na hora, quase derretendo (e quem nunca queimou a boca tamanha a pressa pra comer, né não?), sem falar do curau, que eu já gostava de comer bem quente.
A gente fazia uma quantidade que era para sobrar mesmo, levar pra viagem (eu, literalmente), e ainda durava por uma semana, porque meus irmãos não eram chegados em pamonha.
Falando em pamonha, sim, na minha cidade natal, sempre passava o carro das "pamonhas de Piiiiiiiiiiracicaba", que, de tanto passar, todo mundo decorou o jingle (tanto que até virou tirinha de piada da cartunista Laerte), mas tem uma lenda urbana desse carro da pamonha, pelo menos na minha cidade - uma semana depois que o carro da pamonha passava, sempre sumia algum carro. Na época, ter camioneta da Chevrolet ou da Ford, era sinal que a pessoa tinha grana. Inclusive numa dessas, a camioneta de um colega de escola do meu irmão mais velho sumiu da garagem, e encontraram dias depois no meio do mato, depenado e queimado e o seguro não cobriu.
Tirando esse detalhe... quem chegou a experimentar, disseram que as pamonhas não eram feitas do "puuuuuuuuro creme do milho", porque sentia gosto de farinha no meio. Por isso que até hoje é muito difícil de eu comprar pamonha nas lojas, porque a última vez que comi, não parecia pamonha, se me entenderam.
É porque as pamonhas que a gente fazia na casa de uma de minhas tias, juntava um monte de mulher, tinha outro sabor. Não somente do milho com açucar cozido em banho-maria dentro das palhas. Era porque as reuniões das tias e primas eram divertidas, sempre animadas, no improviso mesmo, mas nunca erravam no ponto. E hoje é uma das coisas que eu sinto falta, de reunir e passar o dia só falando aleatoriedades sem maldade nenhuma.
Foto meramente ilustrativa, do Sabor Brasil. Aliás, a verdadeira pamonha é o da foto - embalagem da própria casca do milho, amarrado com barbante feito da casca do milho e usando a palha como prato mesmo, derretendo no garfo. Nada de invenções de colocar queijo, goiabada, gourmetizar o quitute, não. Ou amarrar a palha com elástico. Era milho ralado, um pouco de água e açúcar cristal de preferência.
Postagem que também faz parte do BEDA em Agosto, os Guardiões da Blogosfera, sobre uma comida que traz lembranças. A pamonha é uma delas por causa da história que traz boas lembranças de um tempo que não volta mais, eu acho.

Comments
Post a Comment