Friday, March 26, 2010

Abençoe as Feras e as Crianças (*)

(*) Não necessariamente imaginar seres cruéis e sanguinários. No caso de feras...


Chega março, e o ano letivo aqui encerra-se, bem como o ano fiscal. Sim, no Japão tanto o ano letivo e o fechamento do balanço fiscal, termina em março. Abril, ano novo, problemas velhos: escola, trabalho...

Recentemente, nos posts dos amigos Elisa e Alexandre (leiam sobre as crianças brasileiras no mundo aqui, e sobre crianças brasileiras no Japão aqui) eles mencionaram sobre o futuro das crianças estrangeiras que aqui residem. Que a maioria deixa de frequentar a escola por motivos diversos, como a constante mudança de trabalho, a não-adaptação na escola local, se for escola estrangeira, falta de fundos para levar adiante. E principalmente, na minha humilde opinião, a falta de participação da família no cotidiano dos filhos.

Que os pais precisam trabalhar para garantir o pão nosso de cada dia, eu sei, mas o que vejo (e ouço) são famílias que esquecem de garantir é a educação dos filhos dentro da casa. Sabemos que a escola também contribui para a formação do indivíduo, mas é dos pais é que a maioria das informações deveriam ser passadas. Não sei vocês, leitores, mas particularmente, antes de entrar na pré escola, minha mãe foi daquelas que sentava ao meu lado e explicava sobre historinhas em quadrinhos, placas de sinalização, desenho animado, sobre o que era certo e o que era errado (só uma coisa nem ela e nem eu conseguimos corrigir foi o bendito sotaque de interiorzão, daqueles que puxam o erre)... Sem contar inúmeros contos da carochinha (daí pra eu começar a ler desde o primário foi um pulo). Isso porque ela se desdobrava em manter a casa, cuidar do armazém com meu pai, educar três filhos...

Tudo bem, cada caso é um caso.

Como muita gente deve estar cansada de saber, moro aqui no arquipélago desde 1998. E já desde aquela época, eu já vi (e presenciei) casos de negligência familiar. Onde eu me escondia (coloco neste termo porque morar numa cidade onde um trem pra "cidade grande" passava de meia em meia hora e tinha hatake (plantação) de arroz a cada passo que eu dava...), haviam poucos brasileiros (uns trinta?), mas que trabalhavam todos na mesma empresa. Tive o desprazer de ter trabalhado com uma família cujos filhos tinham uma educação bem peculiar.

A filha mais velha, com quinze anos, não estudava, ficava à toa na rua. E o filho, com sete anos, a mesma coisa, mas era uma peste. Daqueles que se deixar, põe fogo na casa e os pais acharão lindo. E pra que fui eu perguntar "por que não coloca eles na escola?" A mãe, que já tinha um primor de educação, por pouco não me mandou passear, só pra não chocar os leitores aqui.

Fui saber mais sobre negligência familiar aos poucos, lendo jornais, depois através de conversas informais com mais pessoas que conheci, mas nesta altura eu já tinha conhecido namorido e juntado escovas de dente. Namorido tem mais tempo aqui, ele contava-me casos tristes de até amigos dele que não conseguiam educar os filhos porque pensavam no trabalho e ganhar dinheiro (pra logo irem embora). Mas nem tudo estava perdido porque ele também possui amigos com filhos que conseguem e conseguiram educar os filhos, não só pondo na escola mas passando mais tempo com eles.

Aí que chegou um ponto de pensarmos se ter filhos seria uma boa idéia. Muito embora não podermos tê-los por motivo de saúde de ambos, ter filhos exige uma responsabilidade muito, muito grande mesmo. Não que não tenhamos, mas não basta colocar um filho no mundo e não ter condições para educá-lo. Ainda mais nos dias de hoje.

Depois, acontecem um sem número de incidentes e depois os pais colocam as mãos na cabeça perguntando a si mesmos "onde foi que erramos?".

Tenho uma amiga que tem duas filhas, de casamentos diferentes. A mais velha, hoje quase chegando aos 20 anos, cinco anos atrás rebelou-se com a mãe, pegou as coisas e caiu no mundo. Diz que ela dá notícias para a mãe, mas não quer voltar pra casa. Quando encontrei-me com ela numa reunião de outras amigas no ano passado, ela mesma disse que "com a mais velha eu errei muito. Quando a tive, logo tive que trabalhar muito para poder dar condições para ela viver. Só que esqueci que também deveria ter acompanhado o crescimento dela. Quando ela fugiu, a mais nova tinha três anos e a partir daí não queria que a caçula tivesse o mesmo fim."

Hoje a mais nova está no segundo ano do shougakko (o ensino fundamental), minha amiga acompanha todas as atividades na formação da filha, que é hiperativa, por isso ela fala que às vezes fica difícil acompanhá-la.

Quem (consegue) assistir a alguns doramas abordando pais e filhos, citarei alguns no artigo seguinte que eu assisti e às vezes penso que, tudo bem, novela é uma coisa, pôr em prática é outra, mas quem sabe poderá dar certo. Ou também, alguns doramas mostram que, se puder contornar enquanto há tempo, evitará consequências desastrosas.

O título do post de hoje é a tradução literal de um filme bem antigo, de 1973, "Bless the Beasts and Children", do falecido diretor Stanley Kramer, que aborda sobre filhos "desajustados", consequências tidas com famílias destruturadas. Apesar do filme ser antigo, o tema continua sendo atual.

5 comments:

  1. O que são doramas? rsrsrs....

    Eu concordo totalmente que a educação não é apenas obrigação da escola, não basta apenas matricular a criança numa escola e pronto, vai ser uma criança educadinha. Educação, antes até da escola, começa dentro de casa, com os exemplos paternos, com conversas, com atividades educativas. A escola e os pais tem que agir de forma complementar. Conheço inúmeros exemplos ao meu redor de pessoas que acreditam ainda que a educação vem apenas da escola, aí essas crianças crescem sem carinho, sem atenção e enfrentam um monte de problemas na vida adulta.

    E não entendi muito bem esse negócio de acabar o ano letivo agora...como funciona isso aí?

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  2. "Doramas" vem do japoneizado "dramas" - novelas curtas que no Brasil seriam "Casos especiais", pois aqui uma novela dura uma estação do ano (três meses) com dez a doze capitulos semanais. Sem enrolação, aumento de personagens, trama pá-pum rs Quem acostumou com novela do Brasil, vai dizer que as do Japão não têm graça...
    Aqui, o ano fiscal e letivo começam em abril. Inicio de primavera, ares novos, eu acho... Nunca entendi direito e olha que estou aqui mais de uma década, já era pr'eu estar sabendo...
    Sobre educação dos filhos, assino embaixo sua opinião: não basta matricular numa escola e acabou. Tem muito pais por aí que pensam que escola é lugar pra deixar as crianças e se verem livres delas!!
    Depois elas crescem revoltadas, a culpa é da escola?!
    Desculpa a resposta looooooonga..
    Beijos!

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  3. Antes de tudo obrigado pelo link, Kiyomi. Obrigado de coração mesmo.

    Eu gostei desse post. Vc exemplificou bem pq muitas crianças acabam no reformatório. A responsabilidade dos pais, a ignorância, a transmissão da falta de educação.

    Fiquei com vontade de comentar sobre o assunto, as histórias que acompanhei. Quem sabe não ajuda a conscientizar um pouco alguns pais que pensam que filho é brinquedo?

    Muito bom o post, bom fim de semana p vc e Kingyo

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  4. Alexandre, a gente faz bem pra servir melhor rs
    Você sabe que eu não iria passar batido, ainda mais que diariamente ouço, presencio e vejo esses fatos.
    Lembro-me dos anos que lecionei. A gente tinha que ser tudo: mãe, conselheira, confidente, amiga... A gente só não virava namorada porque aí já passaria dos limites, né???
    Hoje em dia, eu penso que ter filhos é responsabilidade enorme. E filho não é cobaia de laboratório pra servir de experimento pra "ver no que dá".
    Se você ler meu post seguinte, se puder (tentar) assistir a essas novelas, vai entender.
    Beijao e bom final de semana!

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  5. Entendo esse lado de ser pais. Eu sinceramente não queria ter filhos no Japão, por achar que isso acabaria acontecendo comigo. Deixar de trabahar, para cuidar de filho sem eu ao menos ter fluência na língua ou ao menos entender alguma coisa caso ele precise de cuidados médicos. O Dú sempre me cobrava, dizendo que trabalharia muito mais pra poder sustentar 3, mas o que me preocupava não era isso, era realmente a educação. Não ia colocar numa escola de brasileiros, mas também acho que ele poderia sofrer com bullying e eu não saberia como reagir se caso tb quisesse voltar um dia pro Brasil. Enfim, várias coisas pesaram e acho que no fundo tomei a melhor decisão, vc entenderá mais tarde o porquê.

    Kisu!

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