Qualquer coisa, fiz duas postagens a respeito aqui e aqui...
Como já disseram os hosts do podcast Otaku no Kissaten no episódio "Perrengue Otaku - O Dia em que me mudei" - mudança já é um perrengue, mudar no Japão então, é nível hard. Se a pessoa em questão, no caso esta que vos posta aqui, é otaku ao ponto de ter três prateleiras cheias de mangas, CDs, DVDs, figures e material de papelaria, pode elevar a nível hardcore à enésima potência.
Em quase trinta anos morando fora, mudamos sete vezes, sendo que duas vezes foi transferência de local de trabalho, três vezes por causa de mudança de emprego, e duas vezes porque a empresa faliu. Pois é.
A não ser que eu seja uma funcionária CLT daqui, contrato direto, salário fixo, as chances de mudar seriam pequenas (não digo que ninguém aqui muda, todo mundo, inclusive os fixos acabam indo parar em alguma cidade distante ou até fora do país, como aconteceu com um funcionário do meu emprego do passado que foi transferido para a Malásia), mas como não é o meu caso, vamos lá.
Tudo começou em outubro do ano passado, no meu trabalho anterior, quando o pessoal do escritório me chamou para conversar. Eu meio que já estava desconfiada, porque naquela época, eu trabalhava temporariamente à noite, e já tinha previsão do turno terminar no final do ano e a partir de janeiro, onde é que iriam colocar tanto funcionário, sendo que estavam funcionando quatro linhas de montagem e iriam reduzir para somente uma,
A proposta era transferência para uma outra cidade longe de onde eu estava, outro trabalho mas continuaria sendo funcionária da empresa alocada. O que fez com que me segurassem até abril, foi o fato que namorido que tinha uma segunda cirurgia* marcada para fevereiro deste presente ano e reserva feita desde julho daquele ano e nem tinha como adiar, já que estava com quatro consultas pré-operatória marcadas em novembro e janeiro.
(*a cirurgia em questão era de catarata, o que no Japão chama-se de "hakunaibyou")
Achei que o assunto tivesse morrido por aí, mas quando chegou na segunda quinzena de abril... o assunto de transferência veio à tona novamente e nem tive como recusar. Primeiro, o setor que eu estava desde janeiro até então era temporário, e depois que terminasse, só kamisama saberia onde é que iriam colocar treze ou quatorze pessoas nas outras seções que por sinal estavam eram dispensando ou transferindo. Segundo, se eu recusasse, se houvesse lista de contenção de pessoal, eu seria a primeira da lista (dado à minha idade, não importando o quanto meu nível de língua japonesa fosse bom ou meu tempo de experiência).
Depois de uns três dias de conversa no escritório para acerto de detalhes (porque nada pode passar batido, desde caixas, material de empacotamento, até serviços burocráticos e como é o trabalho novo, local, regras, salário, contrato, processo de transferência, folgas remuneradas), e fomos nós na última semana de trabalho já nos prepararmos psicologicamente para a mudança.
Mas Kiyomi, precisa preparo psicológico para mudar de casa, não é só encaixotar e acabou? Se a gente tivesse fundos o suficiente para contratar um serviço de mudanças tipo o Art Corporation ou Sakai, eu nem estaria esquentando tanto a cabeça como esquento a cada mudança que a gente tem que fazer na vida. E cada vez que a gente tem que mudar, só piora.
Onde eu trabalho, a empresa ajudou nas caixas e no transporte (mas como nada é de graça neste mundo, a gente só vai ter certeza que o negócio foi gratuito depois que entrar no sétimo mês de trabalho), mas o trabalho de encaixotar tudo, ficou por conta nossa mesmo. Mudar já é um trabalho desgraçado, imagine para uma pessoa como eu que, em quase trinta anos aqui, perdeu a noção de quanto manga, CD, DVD, revistas, livros (de estudo em língua japonesa), photobooks andou adquirindo.
(Só de minha parte, foram quase trinta caixas de tamanho médio, porque se eu pegasse a maior caixa que tivesse no home center o pessoal que ajudou a carregar tudo ia me mandar para outra dimensão.)
Se fosse contar, eu tenho mais manga e livros do que roupa e sapatos (se bem que num passado remoto, foi o contrário).
Por que mudar aqui no Japão se torna uma tarefa de hardcore level elevado à última potência?
- Parte burocrática: embora a solicitação de desligamento de água, luz e gás e último aluguel do alojamento foi providenciada com três semanas de antecedência pela empresa onde trabalho (foi feita a programação no dia seguinte da concretização da nossa transferência), tive que tirar um dia para ir na prefeitura da cidade onde eu morava para solicitar o documento de transferência de endereço (o tenshutsu todoke, que tem que solicitar na prefeitura de onde residia. Já cheguei a solicitar o documento no dia em que eu estava me mudando, porque é emitido na hora) e entregar na cidade onde irei morar no prazo de 14 dias. Dá pra fazer on line, mas depende muito da cidade onde morou e onde irá morar.
E como estou em processo de renovação de visto de permanência, tive que pedir mais dois documentos extras na prefeitura de onde morei.
- Separação de lixo: quem mora no Japão, sabe que tem dia certo para jogar determinado tipo de lixo - queimável, não queimável, latas, vidros, pet bottle, plásticos, sodai gomi (tipo de lixo que o serviço de coleta não pega, tem que levar no clean center ou contratar um serviço para buscar. Geralmente são lixos de grande porte como estantes, colchões, cama, prateleiras...) - e, dependendo da cidade, não tem como deixar na caixa de coleta antecipadamente por causa de vizinhos implicantes e corvos. E também se deixar dentro do alojamento, capaz de cobrar uma taxa extra.
No nosso caso, no prédio onde morávamos, a caixa de coleta de lixo é coberta, e quando o pessoal do bairro sabe que algum morador vai se mudar, ninguém fala nada, desde que coloque o lixo no saco certo. Só que tivemos que esperar passar o feriado de Golden Week para poder jogar tudo o que era tipo de lixo por motivos que o serviço de coleta não trabalharia naquela semana (afinal, o pessoal da coleta merece descanso, vai).
Quanto ao sodai gomi ou quase cinquenta quilos de móveis e objetos de grande porte que tivemos que jogar fora, a sorte é que o pessoal da empresa ajudou a levar tudo para o clean center da cidade (e olha que não era longe de onde morava), porque sai mais em conta do que virem buscar. Falta de carro dá nisso...
*Para isso, tivemos menos de quatro dias para juntar tudo o que não servia mais para a gente, como mais de cinco ou seis prateleiras que, na hora de desmontar, os parafusos empenaram, a madeira rachou no meio (caso de uma estante enorme que eu tinha), acolchoados que já estavam gritando para serem trocados, cadeira de escritório, tapetes, eletrodomésticos...
**No caso de geladeira, máquina de lavar, televisor e ar condicionado, não podem ser descartados como sodai gomi ou levar no clean center - tem que pedir informação na prefeitura de como descartar e pagar, já que nas lojas de segunda mão, dependendo do ano de fabricação, eles não aceitam. Já vi lojas de eletroeletrônicos que aceitam sua geladeira velha desde que pague uma taxa adicional... Mas tem um site (em japonês) em que informam o valor de cada modelo e marca desses quatro aparelhos, o Association for Electric Home Appliances (AENA).
Na pior da hipóteses, coloque anúncio nas redes sociais se alguém quer uma geladeira ou televisor ou máquina de lavar de graça...
- Encaixotamento: Quem falar pra mim "coloca tudo na caixa e acabou", é porque não tem pratos, copos, xícaras (aka "mug cup"), figures, CDs, DVDs, concert goods, tudo o que quebra. Isso porque na última mudança, metade dos pratos e copos foram para o lixo não queimável e com aviso de que tem vidro quebrado, por conta de uma curva e caixa mal colocada na pilha. Minha sorte é que eu guardei todas as caixas dos meus figures (ao ponto de eu ter uma caixa só pra isso).
Na hora de encaixotar pratos, copos e tudo o que quebra na cozinha, além de usar aquelas folhas cushion para isso, era brincar de LEGO, ou seja, encaixando onde dava sem quebrar, e preenchendo os espaços vazios com jornal (que é útil para tudo, desde limpar vidros até embalar vidros). E ir alternando com itens de plástico para não ficar tão pesado.
Meus livros, mangas e revistas tive que alternar com roupa para não pesar, se bem que chegando na reta final confesso que já tinha perdido a paciência e coloquei tudo numa caixa só, já que felizmente chamaram reforços para carregar e descarregar a mudança. No caso de CDs e DVDs, couberam em caixas menores que eu tinha guardado quando comprava meus goods, que vinham em caixas. Não reclamo mais dessas lojas on line que colocam uma revista pequena numa caixa enorme.
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Quando você vai mudar de casa, de emprego, de tudo, uma das coisas que aprendi nesse processo todo é não alardear meio mundo, somente seu responsável pelo trabalho pra ver se arranjam uma cobaia pra ficar no seu lugar, se bem que depois todo mundo fica sabendo do mesmo jeito. Não que fiquei espalhando para meio mundo, mas teve gente que soube não sei como. Mas quando ficam sabendo, ficam especulando demais, e é algo que eu detesto, parece que estão querendo me ver longe dali. E como muita gente sabia que eu sou otaku tanto de anime e manga como de idol groups, teve algumas pessoas que "aconselharam" a desfazer de minhas coleções para facilitar na mudança.
Vou ser bem direta: eu comprei com meu dinheiro, com meu trabalho, são itens que sei que nunca mais vou conseguir encontrar (e se encontrar vou ver aquele valor absurdo). Eu releio volta e meia quando bate aquela vontade de vale a pena reler de novo, tenho meus hobbies, o que me fazem esquecer o quão caótico anda a vida hoje em dia. E vou desfazer por causa de mudança??? É mais fácil eu me livrar de roupa que não me serve mais do que meus hobbies, caramba. Revista, ainda vai, têm algumas que andei comprando no impulso mesmo e agora estou fazendo trabalho de descarte, mas livros e mangas, aí vamos conversar, certo?
Teve uma época que realmente tive que desfazer de muita coisa, mas quando falo muita coisa, foi muita coisa mesmo, como diversas coleções completas de manga (que consegui recuperar depois de muitos anos), CDs, DVDs (só de DVD-Box de dorama, desfiz mais de cinco ou seis) e até figures que hoje não encontro mais nem em mercado negro. Motivo: precisamos nos mudar por motivo de trabalho e estava numa situação nada favorável na época.
Sobre mudar - em alguns aspectos pode ter um lado positivo, como trabalho novo, vida nova. Mas também depende onde você vai morar, já que saímos de um apartamento 3LDK (três quartos, sala, cozinha e sala de jantar) e fomos parar em um 2DK (dois quartos, cozinha com sala de jantar). Isso porque no apartamento anterior, um quarto estava literalmente vazio.
Felizmente no apartamento atual, a cozinha com sala de jantar é espaçosa, deu para colocar a mesa, os armários, prateleiras e geladeira. Os quartos também são espaçosos, têm armários espaçosos (deu para colocar todas as nossas coisas, inclusive as caixas que têm objetos que a gente não vai usar mais (só não boto pra vender porque ninguém vai comprar prato ou copo semi usado)), e agora, de minha parte, falta comprar outra estante enorme (porque a terceira que eu tinha, foi pro clean center de Kisarazu) para acomodar o restante dos meus livros e CDs, mas vai ser questão de tempo, porque os home centers da cidade ficam longe de onde moro, e ainda não temos carro. A não ser que eu compre tudo on line.
Toda mudança que fizemos, aconteceu quase a mesma coisa - boa parte dos móveis tiveram que ser descartados a cada mudança por causa de que, na hora de desmontar, especialmente as prateleiras, acabaram rachando que nem com cola de madeira iria resolver; a cama quebrou o estrado na hora de desmontar; um sofá de tecido mofou; a tábua de sustentação de uma das estantes de livros que eu tinha rachou no meio na hora de desparafusar (além das outras partes que já estavam quebradas e não tinha percebido), uma cadeira de escritório com o encosto quebrado, e por aí vai. Claro que acabamos comprando novos para repôr, aproveitando que a gente ia mudar mesmo...
Fora que depois na hora de colocar tudo em seu devido lugar, muita coisa ou fica de fora, ou a gente acaba desfazendo mesmo, no meu caso, estão sendo as revistas que comprei no impulso e manga que comprei repetido sem querer, além de roupas que tive que descartar usando o fluxograma de descarte de roupas que vi no site da Sernaiotto uns bons anos atrás e para mim está funcionando bem.
A gente passa por perrengue na mudança? Nem é melhor comentar, mas sete mudanças depois, chega a um ponto que temos que ficar num lugar só por um bom tempo, como aconteceu quando mudamos para Yokohama - ficamos quase nove anos no mesmo endereço e no mesmo emprego, não tive culpa se a empresa onde trabalhava acabou fechando as portas e estava muito difícil encontrar outro na região, mesmo em Tóquio. Em Kisarazu era para eu estar no mesmo emprego até hoje, se não fosse a empresa alocadora que eu estava ter sido cortada e transferiram metade do pessoal para Aichi.
Sei que cada caso é um caso, tem gente que muda de emprego por causa de diversos motivos, desde salário até estado emocional e psicológico da pessoa. No nosso caso, especialmente o meu, era porque não teria lugar para mim quando a seção temporária acabasse. E como disse, do que adianta ter um bom nível de compreensão de língua japonesa, ter anos de experiência se a idade não ajuda e não tenho Q.I. forte (Q.I. = Quem Indica ou "costa quente"). Na altura do campeonato, seria aceitar o que oferecerem, mesmo tendo que mudar (ao menos não tive o pescoço cortado).
O motivo da demora de voltar a postar no Empório foi justamente esse processo de transferência, que demandou muito tempo até acostumar com o trabalho novo que é muito mais movimentado que o anterior, e exige rapidez e atenção. Sobre o pessoal com quem eu trabalho, é ter muita paciência e quanto menos errar, melhor para ganhar confiança, tanto para eles como para si mesmo. Ou seja, não se afobar e fazer o trabalho com segurança. Como sempre, né.
Até eu entrar nos trilhos e acostumar com o novo lar e trabalho, vai levar um pouquinho de tempo, tanto que tudo está atrasado (mais do que já está), e estou fazendo aos poucos, especialmente depois que volto do trabalho, caso eu sair mais cedo, porque se chego tarde em casa, o máximo que vou conseguir fazer é ler alguns capítulos de algum manga ou assistir programa atrasado nos streamings.
Que vai levar um tempinho mesmo para voltar a ir ao cinema (que fica a quase uma hora daqui), ir em eventos (se for em Tóquio, é pra aproveitar o dia pra fazer tudo o que puder) e conhecer melhor a cidade, já que ela é conhecida pelo Monte Asama e Karuizawa fica a meia hora de trem.
Foto da autora, via smartphone que precisa ser trocado urgente, do alto do morro onde eu trabalho para a vista da cidade.

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